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Mono no aware

A beleza pungente das coisas que passam / o pathos das coisas

物の哀れ (mono no aware) é, ao pé da letra, "o aware das coisas" — e aware (哀れ) é aquele suspiro, meio "ah", que escapa diante de algo comovente. É a emoção terna e dolorida que a transitoriedade das coisas provoca: a flor de cerejeira é linda porque cai em poucos dias; o rosto do amigo comove porque vai embora; o instante emociona porque não volta. Não é tristeza pura nem melancolia paralisante — é uma sensibilidade afinada para a beleza que mora justamente na finitude. O termo foi cunhado como conceito estético pelo erudito Motoori Norinaga (本居宣長, séc. XVIII), lendo o Genji Monogatari, mas a coisa é antiquíssima na sensibilidade japonesa, e ninguém a encarna melhor, na via da arte, que Bashō: cada haiku seu é um mono no aware comprimido — o salto da rã que já sumiu, o outono que chega, a cigarra cujo canto "nada revela de quão perto está de morrer".

É prima carnal de mujō 無常 (a impermanência): o mujō é o fato de que tudo passa; o mono no aware é a resposta do coração a esse fato — não o pânico, não a negação, mas o "ah" comovido que acha beleza na queda. Onde o memento mori aponta o dedo para a caveira e diz "desapega", o mono no aware olha a mesma flor caindo e diz "que linda, e por isso mesmo". Toca também ku 空 (o vazio de que a coisa emerge e para onde volta) e sabi 寂 (a beleza do gasto e do só, o parente mais quieto).

Contraponto: ver sacramento-do-momento-presente (Caussade) e memento-mori. Racha: para o japonês, a coisa comove porque passa e nada a segura — a beleza está em aceitar o fluxo puro, sem ninguém do outro lado do instante; a folha cai no vazio. Para o cristão, o que passa é comovente porque aponta um Eterno que não passa — a flor que cai é dom de um Criador e sinal de uma Pátria; a folha cai nas mãos de Alguém. Os dois sentem o mesmo suspiro diante do que morre; um o vê como beleza da própria finitude, o outro como véu fino de uma permanência que a finitude anuncia. O "ah" comovido rima quase inteiro; o que há atrás do instante que passa é o timbre.

Mestre: basho (e ressoa em ryokan, ikkyu)

A teia (o que toca isto)
Matsuo BashōKamo no ChōmeiEndō ShūsakuYoshida KenkōOkakura TenshinSen no RikyūSaigyōSesshū TōyōSōgiA bananeira que se rasga — o nome, a inutilidade e a beleza da solidãoA criança abandonada no rio Fuji — a beleza que dói e a compaixão que não bastaA trilha estreita ao interior — a vida como viagem da eternidadeAdoecido em viagem — os sonhos que vagam pelos campos secosO velho tanque e a rã — o instante comum virando eternidadeO rio que passa e a espuma que some — a impermanência dos homens e das casasAs flores não só no auge — a beleza do incompleto e do que já caiuAs horas vagas — o ócio que pensa e o pincel que verteO orvalho de Adashino — a impermanência que faz a belezaA carta de amor a uma ilha — a ternura por tudo o que existeMeditando na forquilha do pinheiro — a oração no meio da naturezaO escândalo e a queda: o teórico da harmonia com fratura públicaUma religião da arte de viver: o Teaísmo e a beleza no lugar da féUma vez, um encontro — o chá que não se repete nuncaAs ipomeias cortadas e a flor única — o wabi como subtraçãoO coração tingido de flores — o desapego que não chega ao fundoO coração que renunciou ao sentir — a narceja no brejoMorrer sob as flores — o pedido que a morte atendeuMorrer em Hakone, viajando — o poeta que se apaga em trânsitoTrês poetas, cem versos, nenhum dono — a cena da Minase Sanginfueki-ryūkō 不易流行 — o eterno e o mutável juntosichigo ichie 一期一会 — um encontro, uma vez na vidasabi 寂 — a beleza da solidão e do desgastetsurezure 徒然 — o ócio que vira viawabi 侘 — a beleza da pobreza e da faltaA escada da beleza — subir a Deus pela beleza das criaturas (*per visibilia ad invisibilia*)O sacramento do momento presente — Deus que se dá em cada instante

Fonte: conhecimento/conceitos/mono-no-aware.md