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Ma

O intervalo, a pausa, o espaço-entre

(ma) é o intervalo — o vão entre as coisas que dá sentido às coisas. O kanji mostra o sol (ou a lua, numa forma antiga) visto pela fresta de um portão: o espaço por onde a luz passa. Ma é o silêncio entre duas notas que faz a música (sem ele, não há ritmo, há ruído); a pausa na fala que faz a frase pesar; o vão vazio na arquitetura que faz os cômodos respirarem; o espaço não-preenchido de uma sala que dá dignidade ao poucos objetos nela; o tempo suspenso entre um ato e o seguinte no teatro nô, quando nada acontece e é justo aí que tudo se adensa. Não é o "nada" no sentido de falta — é um vazio ativo, estruturante, parte da forma tanto quanto o que a preenche. Onde o Ocidente tende a ver o intervalo como ausência a ser corrigida (preencher o silêncio, encher a parede, ocupar a agenda), o ma é a percepção de que o entre carrega o cheio: tire o intervalo e as coisas colam, chapam, morrem.

É irmão pictórico do yohaku 余白 (o branco não-pintado da tinta e da caligrafia): o yohaku é o ma na imagem, o ma é o yohaku estendido ao tempo, ao som, ao espaço construído. Toca o ku 空 (o vazio, a vacuidade) — o ma é o ku tornado sensível no intervalo concreto — e é a temperatura de boa parte da via da arte: o silêncio depois do salto da rã em Bashō (o instante que cria o vazio em volta), a sala de chá nua de Rikyū (o vazio que faz o encontro aparecer), o não-pintado de Sesshū (a névoa que separa dois montes e os faz existir). Resolve, como conceito, os muitos links pendentes que os mestres deixavam apontados para "ma 間".

Contraponto: rima com o silêncio de Deus — a descoberta bíblica de que a Voz vem no "sopro suave", não no vento nem no terremoto (1Rs 19,12), e o "aquietai-vos e sabei" (Sl 46,10); o intervalo, o silêncio, a pausa como o lugar onde o essencial acontece. Toca também a quies dos hesicastas e a pausa litúrgica (o silêncio depois da leitura, o intervalo que não é vazio morto, é escuta). Racha: o ma é um vazio sem destinatário — o intervalo estrutura a forma e repousa em si, o silêncio é o vazio sereno de onde as coisas emergem, sem ninguém do outro lado. O silêncio cristão é habitado — a pausa é escuta de um Tu, o intervalo é a antessala de um encontro, o "aquietai-vos" é ordem para ouvir uma Presença que sussurra. O poder do entre, do vão, do não-preenchido rima quase inteiro; se o intervalo é fluxo que basta a si ou silêncio à espera de uma Voz é o timbre.

Mestre: sesshu (pelo yohaku), rikyu e basho (o intervalo na sala e no verso); ressoa em toda a via da arte

A teia (o que toca isto)
Matsuo BashōKamo no ChōmeiEisaiEndō ShūsakuGenshinIkkyū SōjunKakubanKakure KirishitanKeizan JōkinPaulo MikiMusō SosekiMyōeNichirenOkakura TenshinSen no RikyūSengai GibonSesshū TōyōSuzuki ShōsanShōtoku TaishiSōgiYamamoto TsunetomoUchimura KanzōJusto Takayama UkonA criança abandonada no rio Fuji — a beleza que dói e a compaixão que não bastaO velho tanque e a rã — o instante comum virando eternidadeA porta da Índia fechada: o desvio que virou o tesouroO Cristo pisado que fala — o Silêncio, o fumie, "pisa, foi para ser pisado que eu vim"O Dante do Japão — pintar o inferno pra mover o coraçãoA confraria do bem-morrer — ninguém morre sozinhoO Nome que já é o teu fôlego — o nembutsu esotéricoPisar a imagem e chorar por dentro — a apostasia forçada e a misericórdiaAs Maria-Kannon — a devoção disfarçada de budismoO jardim como zazen — pedra, areia e musgo como caminho de despertarO tapete de musgo e a impermanência no verde — o vazio que se atravessaA orelha cortada — consagrar o corpo, e o bisturi do excessoO filho do pescador proclama a Lei supremaO tratado que profetizou a invasão"A Ásia é uma": a frase, a intenção e a cooptação militarista posteriorAs folhas sacudidas sobre o caminho varrido — a perfeição que inclui o imperfeitoUma vez, um encontro — o chá que não se repete nuncaAs ipomeias cortadas e a flor única — o wabi como subtraçãoA porta de sessenta centímetros — a igualdade dentro da cabanaO último chá e o poema à adaga — morrer sem tremer sob o tiranoO círculo, o triângulo e o quadrado — a imagem que se recusa a fechar sentidoO branco que carrega a pintura — o poder do não-pintadoA energia da morte como fogo da prática — encarar a finitude para viver ferozOs templos e o sol nascente — Shitennō-ji, Hōryū-ji e a carta à ChinaA escola das vozes cedidas — Shōhaku, Sōchō e o legadoMorrer em Hakone, viajando — o poeta que se apaga em trânsitoTrês poetas, cem versos, nenhum dono — a cena da Minase SanginA morte negada — quis seguir o senhor e foi proibidoO Caminho do guerreiro se encontra na morte — viver como quem já morreuA reverência que ele não fez — a consciência cristã contra o culto ao EstadoA voz sozinha contra a guerra — a fé contra o nacionalismoO mártir sem sangue — reconhecido quatrocentos anos depoisbushidō 武士道 — o caminho do guerreirodaimoku 題目 — a invocação do título que salvahimitsu nenbutsu 秘密念仏 — o Nome que já é o teu fôlegoichigo ichie 一期一会 — um encontro, uma vez na vidaKakure Kirishitan 隠れキリシタン — os cristãos escondidoskaresansui 枯山水 — o jardim seco, a paisagem de pedra e areiaraigō 来迎 — Amida vem te buscarrenga 連歌 — a poesia encadeada, a via feita a muitas mãossabi 寂 — a beleza da solidão e do desgasteshikidoku 色読 — ler o sutra com o corpotsurezure 徒然 — o ócio que vira viawa 和 — a harmonia, a concórdia, o acordo do grupowabi 侘 — a beleza da pobreza e da faltayohaku 余白 — o branco que sobra (e que carrega tudo)Morrer-para-viver — o morrer-para-si para viver em Cristo"Todos os que pegam a espada, pela espada morrerão" — a espada embainhadao perdão do cadafalso — o mártir que perdoa quem o mataO silêncio de Deus — a Voz que fala na quietude, não no estrondo

Fonte: conhecimento/conceitos/ma.md