O problema do mal
A objeção mais dura que se faz à fé, e a mais honesta: se Deus é bom, e todo-poderoso, e criou tudo — de onde vêm o mal, o sofrimento, a doença, a injustiça, e o inferno? Ou Deus quer impedir o mal e não pode (e não é todo-poderoso), ou pode e não quer (e não é bom): assim a formulou Epicuro, assim a repetiu a filosofia ocidental, e assim — três séculos antes de Hume — a escreveu Suzuki Shōsan no seu Ha Kirishitan (ver shosan_ha_kirishitan), atacando o Deus criador dos missionários. É a teodiceia (do grego theos, deus, e dikē, justiça: "justificar Deus"). O Catecismo não foge dela: "não há um traço da mensagem cristã que não seja, em parte, uma resposta à questão do mal" (309), e reconhece que só o conjunto da fé — criação, pecado, cruz, ressurreição, vida eterna — responde, nunca uma fórmula rápida (nºs 309-314, 385). Primeiro passo, decisivo: conceder o peso da objeção. O mal é um escândalo real; a fé não o trata como um problema fácil resolvido num slogan. Quem responde ao problema do mal com uma frase de efeito não entendeu o problema.
A resposta cristã vem em camadas, e nenhuma é um golpe:
(1) A defesa do livre-arbítrio (Agostinho). Boa parte do mal — a crueldade, a injustiça, a guerra, a traição — é mal moral, e nasce da liberdade das criaturas. E a liberdade é o preço do amor: um amor forçado não é amor; uma criatura incapaz de escolher o mal seria incapaz de escolher, de verdade, o bem e o amor. Deus faz um mundo de criaturas livres — e livres para o bem são livres também para o mal (ver graca-e-livre-arbitrio, pecado-original). Agostinho acrescenta que o mal não é uma "coisa" que Deus tenha criado, mas uma privação do bem (privatio boni) — uma ferida, uma ausência, um bem que falta, como a cegueira é a falta da vista; Deus não cria o mal, cria seres bons que podem falhar. E Tomás (Summa I q.48-49): Deus permite males para deles tirar bens maiores, "porque é próprio da Sua bondade infinita permitir males e deles tirar o bem".
(2) Jó — o mistério mantido, não dissolvido. O livro de Jó é a pergunta de Shōsan gritada por um justo que sofre sem culpa. E o mais impressionante é a resposta de Deus: Ele não explica. Fala do turbilhão (Jó 38-42), mostra a grandeza da criação, o mar, as estrelas, o hipopótamo, e não dá a Jó a razão do seu sofrimento. Dá a Jó a Sua presença. O mistério do mal é mantido, não resolvido num argumento — e Jó se aquieta não porque entendeu, mas porque encontrou ("meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora meus olhos te veem", Jó 42,5). A fé não recebe a fórmula do porquê; recebe Alguém ao lado no escuro.
(3) A Cruz — o coração, e o que nenhuma teodiceia argumentativa faz. Aqui a fé cristã dá o passo que a distingue de toda filosofia. Ela não põe Deus fora do sofrimento, explicando-o de longe como um relojoeiro distante. Põe Deus dentro dele. Em Cristo, Deus não manda uma resposta ao sofrimento — Ele entra no sofrimento e o carrega: "meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mt 27,46) é Deus experimentando, por dentro, o abandono e a dor humanos (ver cordeiro-imolado). É por isso que o Silêncio de Endō Shūsaku é a dramatização exata desta resposta: o padre pisa no rosto de bronze de Cristo para salvar os camponeses torturados, e o rosto pisado fala — "pisa. Foi para ser pisado por vós que eu vim ao mundo." O Deus cristão não é o criador impassível que Shōsan refuta com razão; é um Deus que sofre-com, que se deixa pisar, que sangra junto. Some-se Rm 8,28 ("Deus faz concorrer tudo para o bem dos que o amam") e a felix culpa do Exsultet pascal — "ó culpa feliz, que mereceu tão grande Redentor" —, a intuição vertiginosa de que Deus é capaz de tirar de um mal um bem maior do que se o mal não tivesse existido.
Rima com: Suzuki Shōsan e o Ha Kirishitan (ver shosan_ha_kirishitan) — o único mestre do banco que atacou o cristianismo de frente, e justamente por aqui. A objeção de Shōsan é real e séria, e o banco a honra. Rima também com toda a tradição do lamento crente — os Salmos de imprecação, o Qohélet, a noite escura de João da Cruz, o silêncio de Deus que Endō e os Kakure Kirishitan viveram na pele. A pergunta "por quê?" é da própria fé, não só dos de fora.
Racha, e é o timbre: para Shōsan (e para o budismo), o mal refuta o criador — melhor não haver Deus pessoal, só karma (因果, causa-e-efeito impessoal) e vazio, onde o sofrimento não é escândalo porque não há Ninguém que devesse impedi-lo e não impediu; a pergunta se dissolve ao se abolir o Rosto. Para o cristão, o mal é um escândalo que permanece — a fé não o dissolve, leva-o ao pé da Cruz, onde Deus o assume. E a dobra fina: o problema do mal é mais agudo no cristianismo, não menos — justamente porque Deus é bom e pessoal, a pergunta tem para quem ser feita, e dói mais. Shōsan escapa do escândalo abolindo o Rosto; o cristão fica com o escândalo e com o Rosto — pisado, na cruz, ao lado. Um resolve o problema tirando Deus da equação; o outro o mantém, e responde não com um argumento vitorioso, mas com um Deus que entra na dor. Dissolver o mal abolindo o Autor × carregar o mal ao pé de um Deus que sofre-com.
O que a marca herda: a coragem de encarar a objeção mais dura sem trapaça — conceder o seu peso inteiro, jamais ridicularizar quem a faz — e a resposta que não é um golpe, é um Crucificado. A honestidade intelectual é a autoridade: fala exatamente ao desigrejado que saiu da fé por esta pergunta e que só reabre a porta se a vir tratada com respeito.
Citado por: (backlinks abaixo, no Obsidian — reutilizável: par natural de shosan_ha_kirishitan e do eixo da ponte Japão×Cristo — Endō e o Silêncio, os Kakure Kirishitan, o silencio-de-deus; e de todo momento em que o sofrimento e o "por que Deus permite?" aparecem)
Fonte: conhecimento/catolico/o-problema-do-mal.md