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Nishida Kitarō

Nishida Kitarō

Escola de Kyoto · filosofia (o nada absoluto) · 1870–1945 · topo-neutro

1. Identidade em uma linha (a espinha)

O homem que fundou a filosofia japonesa moderna sentando-se em duas almofadas ao mesmo tempo — a do zazen e a da escrivaninha ocidental — e perguntando uma coisa que ninguém antes tinha juntado: e se, antes de existir "eu" olhando "o mundo", houvesse só a experiência pura, o ver antes de haver alguém que vê? Amigo de infância de D. T. Suzuki, praticante sério de Zen, leitor voraz de Fichte, Hegel, William James e do místico cristão Meister Eckhart, Nishida passou a vida cavando abaixo de toda divisão — sujeito e objeto, mente e coisa, Deus e nada — até tocar um fundo que ele chamou de 絶対無, o "nada absoluto": não o vazio da falta, mas o lugar sem-fundo onde tudo aparece. E fez isso enquanto a vida o triturava — filhos mortos, a esposa paralisada, a guerra fechando o cerco — de modo que a "filosofia do nada" dele não é ginástica de gabinete: é dor pensada até o osso. É o mestre caso especial do banco: não uma figura cristã, mas a ponte intelectual — o filósofo cujo nada dialoga de frente com a mística cristã, e a partir de quem, décadas depois, budistas e cristãos finalmente puderam sentar na mesma sala e se entender.

2. Tradição, linhagem e datas

Filósofo (1870–1945), fundador da Escola de Kyoto (京都学派) e o primeiro pensador japonês verdadeiramente original a dialogar de igual para igual com a filosofia ocidental — a peça-ponte do banco, ao lado de Endō e Uchimura, no eixo Japão × Cristo (território §2). Mas onde Endō é romancista católico e Uchimura é evangélico do "sem-igreja", Nishida é o único que entra pela porta da filosofia pura: não confessa fé nenhuma, e é justamente por isso que serve de topo neutro — o terreno franco onde Oriente e Ocidente podem se encontrar sem que ninguém tenha de se converter à entrada.

Sua "linhagem" é raiz e dupla, e essa duplicidade é a marca dele. Pelo espírito, é herdeiro do Zen: praticou zazen com seriedade por quase uma década (aproximadamente 1897–1905), sob mestres Rinzai em Kyoto e Kanazawa, recebeu prática de kōan e um nome budista leigo — e teve, desde a juventude em Kanazawa, a amizade da vida inteira com D. T. Suzuki (鈴木大拙, Suzuki Daisetsu), o homem que levaria o Zen ao Ocidente. Os dois meninos da província que se tornariam, cada um por sua via, as duas grandes pontes do Japão com o mundo. Pelo ofício, é herdeiro da filosofia ocidental que devorou: a "experiência pura" de William James e Ernst Mach, o idealismo alemão (Fichte, Hegel), o élan de Bergson, os neokantianos (Rickert, Cohen) — e, decisivo para a marca, a mística de Meister Eckhart, que ele lia e citava. Nasce em Mori, província de Ishikawa (perto de Kanazawa), em 1870; forma-se como aluno "avulso" (não regular, e humilhado por isso) na Universidade Imperial de Tóquio; ensina no Quarto Colégio Superior de Kanazawa e no Gakushūin, e a partir de 1910 na Universidade Imperial de Kyoto, onde é professor de filosofia até se aposentar em 1928. Morre em Kamakura em junho de 1945, semanas antes do fim da guerra.

3. Biografia — o arco

Nasce em 1870, no primeiro ano pleno da era Meiji, num Japão que acabara de rasgar dois séculos e meio de isolamento e engolia o Ocidente inteiro de uma vez. Filho de uma família de posses em declínio na província de Ishikawa, Nishida é um jovem brilhante e insubmisso: entra na escola em Kanazawa, ali trava a amizade com D. T. Suzuki e outros que seriam vultos, mas abandona o curso regular por atrito com o autoritarismo escolar. O preço vem na Universidade de Tóquio, onde só consegue entrar como aluno "especial" / avulso (選科, senka) — categoria de segunda classe, sem os direitos do aluno regular, tratado com desprezo pelos colegas e pela instituição. A humilhação do estrangeiro dentro do próprio país marca-o cedo (§4).

Formado, volta à província e passa anos como professor de colégio no interior, longe dos centros, ensinando enquanto pensa por conta própria e, sobretudo, pratica zazen com afinco — os anos de Zen (por volta de 1897 a 1905) são o solo silencioso de que toda a obra vai brotar. Em 1911, aos 41 anos, publica 善の研究 (Zen no Kenkyū, "Um Estudo sobre o Bem"), o livro que o revela e que se torna o primeiro clássico da filosofia moderna do Japão: nele lança a ideia de 純粋経験 (junsui keiken, a "experiência pura") — a experiência tal como é antes de a mente a rachar em "sujeito que percebe" e "objeto percebido" (ver nishida_experiencia_pura). Em 1910 já fora chamado para a Universidade de Kyoto, onde constrói, aula após aula, uma escola de pensamento inteira em torno de si — a futura Escola de Kyoto.

Nos anos seguintes o pensamento se aprofunda e escurece, e a vida também. Nishida perde vários filhos — uma filha pequena, e o filho Ken, morto aos 22 anos — e, em 1925, a esposa Kotomi, depois de anos paralisada por um derrame. A "filosofia do nada" amadurece no meio desse desmoronamento (§4). Ele desenvolve então a lógica do 場所 (basho, "lugar / topos", ensaio de 1926): a ideia de que toda consciência e todo ser se dão dentro de um "lugar", e que o lugar último, aquele que contém tudo e não é contido por nada, é o 絶対無 (zettai mu, o nada absoluto) — não uma coisa, não um ser, mas o campo sem-fundo onde os seres aparecem (ver nishida_o_nada_absoluto). Mais tarde formula a fórmula vertiginosa da 絶対矛盾的自己同一 (zettai mujunteki jiko dōitsu, a "autoidentidade da contradição absoluta"): o real é a unidade viva de opostos que não se dissolvem — o um e o muitos, o eterno e o instante, sendo o mesmo sem deixarem de ser contrários.

Aposentado em 1928, continua a escrever, cercado de discípulos (Tanabe Hajime, Nishitani Keiji e outros formam a Escola de Kyoto). E então cai a sombra: nos anos 1930-40, com o Japão em marcha militarista, a Escola de Kyoto é arrastada para o debate do "Superar a Modernidade" (近代の超克), e o próprio Nishida, pressionado pelo governo e pelo Exército, escreve sobre a "lógica do Estado" e sobre a ordem mundial — textos ambíguos, lidos por uns como cumplicidade com o imperialismo, por outros como tentativa velada de moderar e conter os militares (§11, o bisturi). Idoso, doente, vigiado, isolado, Nishida morre de infecção renal em Kamakura, em 7 de junho de 1945 — pouco antes das bombas e da rendição. Décadas depois, a Escola que ele fundou se tornaria um dos grandes sítios do diálogo budista-cristão do século XX (§10). O caminho de Kyoto onde ele caminhava a meditar chama-se, até hoje, o caminho do filósofo (哲学の道).

4. A cicatriz (o ferimento fundador)

O luto em cima do luto — a vida que desabou por dentro enquanto ele pensava o nada; e, por baixo dela, a humilhação antiga do estrangeiro dentro da própria terra. A "filosofia do nada" de Nishida tem fama de abstração gelada, e é o oposto disso: nasce de um homem sendo esvaziado à força, uma perda de cada vez. Ele enterrou filhos — uma menina ainda pequena, e o filho Ken aos 22 anos — e viu a esposa Kotomi ser derrubada por um derrame e definhar anos, paralisada, até morrer em 1925. Um diário e as cartas dele guardam o peso: o pensador do absoluto chorando como qualquer pai, escrevendo que a dor não se filosofa, se atravessa. E é aí que está a alquimia da cicatriz: o 絶対無 não é um conceito que ele achou nos livros alemães — é o fundo que sobra quando tudo o que você segurava é arrancado. Quando morrem os filhos e a esposa, quando o eu que dizia "meu filho, minha mulher, minha vida" é esvaziado de todos os seus objetos, o que resta não é o desespero puro: é a descoberta de um lugar que continua sustentando o aparecer das coisas mesmo depois que as coisas se foram. O nada absoluto é a ferida do luto pensada até virar chão.

E há a camada de baixo, mais velha: a humilhação do aluno "avulso" em Tóquio — o provinciano brilhante tratado como cidadão de segunda dentro da elite do próprio país, o estranho em casa. Toda a vida de Nishida foi a de alguém que não coube nas categorias prontas: nem japonês tradicional puro (leu o Ocidente inteiro), nem ocidental (era japonês até o osso, praticante de Zen), nem religioso confesso (nunca se converteu a nada), nem só acadêmico (o zazen fervia por baixo). O homem que não cabia em caixa nenhuma foi exatamente o que precisou cavar abaixo de todas as caixas — abaixo do sujeito e do objeto, do Oriente e do Ocidente, do ser e do nada — para achar o lugar onde as divisões ainda não tinham sido feitas. A cicatriz do que não tem lugar virou a filosofia do Lugar que a tudo acolhe.

5. O movimento / a virada (o que ele rompeu)

Nishida rompeu com a divisão sujeito-objeto como ponto de partida — o pressuposto que estruturava a filosofia ocidental de Descartes para a frente. O Ocidente começava sempre pelo "eu penso": primeiro há um sujeito de um lado (a mente, o "eu") e um mundo de objetos do outro (as coisas lá fora), e o problema é como a ponte entre os dois se sustenta — como o "eu" cá dentro alcança o mundo lá fora. Nishida virou o tabuleiro: e se essa divisão não for o começo, mas já um segundo momento? Na experiência pura (junsui keiken), diz ele, no instante em que você ouve de fato uma nota de música, ou é tomado por uma paisagem, ou age imerso numa arte, ainda não há "você" ouvindo "a nota" — há só o ouvir, o acontecer, inteiro e sem costura. O "eu que ouço" e "a nota que é ouvida" são recortes que a mente faz depois, sobre uma experiência que já era una antes de ser rachada. O concreto é a unidade; a divisão é a abstração posterior. Isto é Zen virado filosofia rigorosa, com aparato ocidental — o não-eu que age sem o sujeito atravancando transposto para a linguagem de James e Fichte.

E, cavando abaixo dessa unidade, Nishida rompeu também com o ser como fundamento último. O Ocidente perguntava, desde os gregos, "por que há ser em vez de nada?", e punha no fundo de tudo um ser supremo (o Ser, Deus como o Ente máximo). Nishida inverte: o fundo de tudo não é um ser — é um 場所, um "lugar", e o lugar último é o 絶対無, o nada absoluto. Não o nada niilista da mera ausência (o "não há nada"), mas o campo sem-fundo, sem forma e sem borda, dentro do qual todo ser aparece e desaparece — como o espaço vazio que não é nenhuma das coisas e é o que permite todas elas estarem. A virada em uma frase: parou de começar pelo eu que olha o mundo, e passou a começar pela experiência inteira antes da divisão; e parou de pôr o Ser no fundo de tudo, pondo lá o Nada que a tudo acolhe — e com isso deu ao Japão uma filosofia própria e, sem querer, montou a ponte pela qual a mística cristã do "nada" (Eckhart, João da Cruz) e o vazio budista puderam, enfim, se olhar de frente (§10).

6. Ensinamentos centrais

  • 純粋経験 (junsui keiken), a experiência pura: a experiência tal como é antes de a mente cindir sujeito e objeto — o ouvir antes de haver "eu" e "som", o agir imerso antes de haver "eu" e "ato". O concreto é a unidade; a divisão vem depois. O ponto de partida de tudo (ver nishida_experiencia_pura).
  • 場所 (basho), a lógica do lugar: toda consciência e todo ser se dão dentro de um "lugar" / campo, não como coisas soltas; e há uma hierarquia de lugares, cada um contido num mais amplo, até o lugar último que contém tudo e nada contém.
  • 絶対無 (zettai mu), o nada absoluto: o lugar último — não um ser, não uma coisa, não o vazio da falta, mas o campo sem-fundo onde os seres aparecem. O fundamento que não é fundamento (ver nishida_o_nada_absoluto e o conceito zettai-mu).
  • 絶対矛盾的自己同一 (zettai mujunteki jiko dōitsu), a autoidentidade da contradição absoluta: o real é a unidade viva de opostos que não se dissolvem — o um e o muitos, o eterno e o instante, o todo e a parte, sendo o mesmo sem deixarem de ser contrários. A verdade tem forma de paradoxo mantido, não resolvido.
  • A síntese Oriente-Ocidente como método: pensar o Zen com o rigor da filosofia alemã e a filosofia alemã com o fundo do Zen — não misturar, mas fazer os dois se interrogarem. A ponte é o próprio ofício.
  • A filosofia a partir da vida, não do gabinete: o pensamento nasce da experiência vivida e do sofrimento real (o luto, a finitude), não de puzzles abstratos. "Conhecer é amar, e amar é conhecer", escreve ele — a filosofia como um modo de habitar a perda, não de fugir dela.

7. Conceitos que ele encarna

zettai mu 絶対無 (o nada absoluto — o conceito que ele funda no banco) · ku 空 (o vazio budista de que o nada absoluto é o parente filosófico ocidentalizado) · mushin 無心 (a não-mente, a ação sem o sujeito atravancando — a experiência pura é o mushin virado filosofia) · fushiki 不識 (o "não sei" apofático, o não-saber que toca o absoluto — parente do fundo sem forma) · e um parentesco de fundo com mujō 無常 (a impermanência de que o luto o fez pensar o chão).

8. Obras

Nishida escreveu filosofia densa e difícil, num japonês que ele quase teve de inventar para dizer o que ninguém dissera em japonês antes:

  • 善の研究 (Zen no Kenkyū, "Um Estudo sobre o Bem", 1911) — a obra-mãe, o primeiro clássico da filosofia moderna japonesa. Onde lança a experiência pura (junsui keiken) como o dado primeiro, anterior à divisão sujeito-objeto, e dela deriva realidade, bem e religião. O ponto de entrada de Nishida (ver nishida_experiencia_pura).
  • 働くものから見るものへ (Hataraku mono kara miru mono e, "Do que atua ao que vê", 1927) — a coletânea que traz o ensaio decisivo sobre o 場所 (basho), a lógica do lugar, e abre a fase madura rumo ao nada absoluto.
  • 無の自覚的限定 (Mu no jikakuteki gentei, "A autodeterminação consciente do nada", 1932) e 哲学の根本問題 (Tetsugaku no Konpon Mondai, "Problemas Fundamentais da Filosofia", 1933-34) — o desenvolvimento do 絶対無 e da contradição absoluta.
  • 場所的論理と宗教的世界観 (Bashoteki ronri to shūkyōteki sekaikan, "A lógica do lugar e a visão religiosa de mundo", 1945) — o último ensaio, escrito à beira da morte e no fim da guerra: a filosofia da religião de Nishida, onde o nada absoluto e o divino se aproximam ao máximo, e onde ele cita a mística (Eckhart) e discute o inverso-recíproco entre o absoluto e o eu. O testamento intelectual.
  • 西田幾多郎全集 (Nishida Kitarō Zenshū) — as obras completas, mais os diários e as cartas, onde aparece o homem enlutado por trás do filósofo (§4).

9. 逸話 ligados (o catálogo)

10. Contraponto católico

Nishida não é figura cristã — aqui há um RACHA, e é o racha-mãe da marca. Mas é um racha especial: é, ele mesmo, o lugar do diálogo. Foi a filosofia de Nishida (e do Zen de Suzuki) que tornou possível, no século XX, um budista e um cristão finalmente se entenderem sem que um tivesse de aniquilar o outro. O contraponto aqui não separa apenas — ele abre a sala.

  • O nada absoluto (絶対無)a Divindade além de Deus, o "nada" de Eckhart e de João da Cruz (ver a âncora nova divindade-alem-de-deus e nuvem-do-nao-saber, noite-escura) — o par central do verbete. A mística cristã tem, no seu ponto mais alto, um "nada": Meister Eckhart fala de um Gottheit (a "Divindade") como o Nada apofático e sem-fundo (Grund) de onde brota o Deus pessoal e trinitário; João da Cruz faz a alma subir ao Monte Carmelo pela ladainha do nada, nada, nada; o Pseudo-Dionísio ensina que a Deus se chega negando todo nome, até o silêncio luminoso. É de arrepiar como rima com o 絶対無 de Nishida — o fundo sem forma, sem borda, que não é nenhuma coisa e é o que permite todas. Por isso Nishida lia e citava Eckhart, e por isso o zettai mu é a mais precisa das pontes. Racha, e é o timbre de tudo: para Nishida, o nada absoluto é o fundo impessoal, sem Ninguém do outro lado — não há um Tu que espere no fim do esvaziamento; o nada é o próprio chão último, e o eu se dissolve nele sem encontrar um Rosto. Para Eckhart e João da Cruz, o "nada" nunca é o fim — é o excesso de um Deus pessoal além de todo conceito e de todo ser: a alma é esvaziada de tudo, inclusive das imagens de Deus, para se unir a Alguém que é pleno demais para caber em nome. O nada cristão é a treva de luz demais, véspera de um abraço; o nada de Nishida é o campo sem fundo e sem face. A via negativa rima quase inteira (os dois passam pelo esvaziamento de todo conceito); o que há — ou não há — no fundo do nada é o racha. E é exatamente sobre esse racha que o diálogo se ergueu.
  • A ponte, por dentro do rachaa Escola de Kyoto e a teologia do século XX. Aqui a marca ganha o seu ouro intelectual. Os discípulos de Nishida levaram o zettai mu ao encontro direto do cristianismo: Nishitani Keiji (A Religião e o Nada) põe o vazio budista a interrogar o niilismo e a fé ocidentais; Takizawa Katsumi, discípulo de Nishida, foi estudar com Karl Barth na Alemanha e passou a vida costurando o "Emanuel" barthiano ao nada de Nishida; e do lado católico, Thomas Merton (Zen and the Birds of Appetite) dialoga com D. T. Suzuki — o amigo de infância de Nishida — nesse mesmo terreno. O nada absoluto virou a língua franca onde budistas e cristãos, pela primeira vez, se ouviram. A posição da marca: celebra-se a ponte — o desigrejado que crê é gente que já mora nesse entre-lugar, tocada pelo sagrado sem os nomes prontos, e Nishida é o pensador desse entre. Mas marca-se que a ponte não apaga o racha: o diálogo vale porque as duas margens continuam sendo duas. O nada impessoal e o Deus pessoal se encontram na via negativa; não se fundem. E há um limite que a Igreja já cravou: quando a mística do nada dissolve a pessoa — a alma e Deus virando indistintos, sem lei nem alteridade — o magistério marcou o passo (as proposições de Eckhart censuradas na bula In agro dominico; o alerta contra o antinomianismo do "livre espírito", ver ad-nostrum). O nada que une sem dissolver é a ponte; o nada que apaga o Tu e o eu é onde a marca não segue.
  • A experiência pura, anterior ao euo Deus intuído antes do nome (ver deus-desconhecido) — o junsui keiken, a experiência inteira antes de haver "sujeito" e "objeto", tem parentesco com a intuição cristã de um sagrado anterior ao conceito, tateado antes de nomeado (Paulo no Areópago, "ao deus desconhecido"). Racha: para Nishida, o que há antes da divisão é a experiência pura impessoal, que aponta ao nada; para o cristão, a intuição anterior ao nome é já o toque de Alguém que quer ser reconhecido. O anterior-ao-conceito rima; o que se encontra ao nomeá-lo, não.

11. Camada da fonte

A obra é densamente documentada (são livros publicados); a leitura filosófica é interpretação legítima; e a polêmica da guerra é reception historicamente contestada. Separo os três, como endo separa a obra da leitura e musashi_o_mito separa o histórico da lenda.

  • Documentado (o lastro firme): as datas (1870–1945) e a origem em Ishikawa; a amizade de juventude com D. T. Suzuki; a entrada como aluno "avulso" / senka em Tóquio e a humilhação que isso significava; os anos de prática de zazen (aprox. 1897–1905) com mestres Rinzai; a cátedra em Kyoto desde 1910 e a fundação da Escola de Kyoto; a bibliografia e as datas (Zen no Kenkyū 1911; o ensaio sobre o basho 1926-27; o último ensaio de 1945); os lutos — os filhos mortos, o filho Ken aos 22, a esposa Kotomi paralisada e falecida em 1925 (nos diários e cartas do próprio Nishida); a leitura e citação de Eckhart; a morte em Kamakura em junho de 1945.
  • Tradição forte: o 哲学の道 ("caminho do filósofo") em Kyoto como a alameda onde Nishida caminhava a meditar — atribuição consagrada e amplamente aceita, ainda que de camada de memória local mais que de documento lacrado.
  • Interpretação (a leitura da obra): o que a experiência pura e o nada absoluto "significam", quanto de Zen há de fato na filosofia (e quanto é James, Fichte, Hegel), e se o zettai mu "prova" a ponte com Eckhart — é interpretação filosófica e teológica, central e legítima, mas leitura, não fato. Marcar sempre: "é uma leitura", não "Nishida demonstra que".
  • Reception / CONTESTADO (o bisturi — contar o debate, não decidi-lo): a associação da Escola de Kyoto (e do próprio Nishida, em grau debatido) ao discurso do "Superar a Modernidade" (近代の超克) e ao nacionalismo de guerra é history em disputa aberta. Nishida escreveu, sob pressão do governo e do Exército, textos sobre a "lógica do Estado" e a ordem mundial; leituras vão de cumplicidade com o imperialismo a tentativa velada de moderar/conter os militares por dentro da linguagem oficial. A honestidade manda nomear as duas leituras e não inocentar nem condenar por decreto — nem apagar a sombra, nem exagerá-la para descartar o homem (ver nishida_a_sombra_da_guerra). Descartar como folclore: qualquer versão que faça de Nishida ou um herói-resistente puro ou um ideólogo nazista-japonês pleno; o real é o cinza contestado, e é assim que se conta.

12. Como usar na marca (e o que evitar)

Topo neutro — a ponte intelectual, não um modelo de vida cristão. Nishida é o mestre que a NTT usa para abrir a sala, não para fechar o argumento. Seu valor é preciso: para o desigrejado que crê — a pessoa que saiu da igreja, perdeu os nomes prontos, e ainda assim é atravessada por um sagrado sem rótulo — Nishida é a prova de que o encontro entre o Oriente do nada e o Cristo do Ocidente não é sincretismo raso de camiseta, e sim um diálogo que os maiores pensadores levaram a sério, no rigor, sem que ninguém tivesse de se render à entrada. Ele é padroeiro de algumas portas: a experiência antes da divisão (para quem vive fatiado — eu de um lado, mundo do outro, sempre observando a própria vida de fora em vez de vivê-la; Nishida diz que o inteiro vem antes do recorte); o nada que acolhe em vez do vazio que aterroriza (para quem chegou ao fundo da perda e achou só ausência — o zettai mu diz que o fundo não é o desespero, é um chão que sustenta o aparecer mesmo depois que as coisas se vão, e é aí, e só aí, que a marca faz a ponte para um chão que é Alguém); e a honestidade do pensador que não cabia em caixa (para o desigrejado que desconfia de todo pacote fechado — Nishida também não coube, e foi por isso que cavou fundo). E é peça de arquitetura: o terceiro pilar da ponte Japão × Cristo, ao lado de Endō (o coração/romance) e Uchimura (a fé sem-igreja) — o pilar da cabeça, o que dá lastro filosófico ao que os outros dois dizem pelo afeto e pela biografia.

Evitar: (1) Nishida não é modelo de vida nem figura de fé — usá-lo como "santo japonês" trai tudo; ele é topo neutro, a ponte da inteligência, e o telos cristão da marca entra por cima dele, nunca por dentro dele. (2) Não vender a ponte como fusão — o zettai mu de Nishida e o "nada" de Eckhart rimam na via negativa e racham no fundo (nada impessoal × Deus pessoal além do ser); apagar o racha vira "no fundo é tudo a mesma energia", e não é — é aí que a marca deixa de ser NTT e vira misticismo genérico. (3) O bisturi da guerra, com honestidade cirúrgica — nem inocentar Nishida (a sombra é real e a Escola de Kyoto se enredou no discurso imperial), nem exagerar para cancelá-lo (a posição dele é contestada, não provada); contar o cinza como cinza, "os historiadores debatem", nunca como veredito. (4) Cuidado com a mística que dissolve a pessoa — o valor do nada é esvaziar para acolher, não apagar o eu e o Tu; quando a conversa escorrega para "você e Deus são a mesma coisa, a lei não existe mais", a Igreja já marcou o limite (Eckhart censurado, ad-nostrum) e a marca marca junto. (5) Não usar "sabedoria oriental ancestral" como autoridade (memória sem-milenar-na-copy): Nishida é moderníssimo — Meiji, 1911, lendo William James —, e a força dele é essa, a de um contemporâneo que pôs Zen e filosofia alemã na mesma mesa; achatá-lo em "sabedoria antiga do Japão" é errar o alvo por completo. (6) A obra é dificílima — não vulgarizar o zettai mu em frase de efeito; a profundidade é o valor, e citar Nishida de calendário o trai como citar Dōgen de calendário trai Dōgen.

13. Palavras-chave em japonês (busca)

西田幾多郎 · 1870 1945 · 石川県 河北郡 森 金沢 · 鈴木大拙 · 選科 東京帝国大学 · 京都帝国大学 京都学派 · 参禅 雪門玄松 · 純粋経験 善の研究 1911 · 場所 絶対無 · 絶対矛盾的自己同一 · 働くものから見るものへ · 場所的論理と宗教的世界観 · マイスター・エックハート 神性 · ウィリアム・ジェームズ フィヒテ ヘーゲル ベルクソン · 妻 寿美 琴 子ケン 死 日記 · 哲学の道 · 近代の超克 国家理由の論理 · 西田哲学 · 西谷啓治 田辺元 滝沢克己 カール・バルト · 鎌倉

Fonte: conhecimento/mestres/nishida.md