A Divindade além de Deus — o Nada apofático de onde brota o Deus pessoal
O ponto mais alto e mais vertiginoso da mística cristã: a descoberta de que, além de todo nome, imagem e conceito de "Deus", há um fundo sem-fundo (Grund) que os místicos ousaram chamar de Nada — não porque Deus seja ausência, mas porque é pleno demais para caber em qualquer coisa que a mente segure. Meister Eckhart (c. 1260–1328), o dominicano renano, é a voz mais radical: distingue Deus (Gott, o Deus que criamos e nomeamos, o Deus "para nós", trinitário e pessoal) da Divindade (Gottheit, o abismo silencioso e sem-forma de onde a própria Trindade "brota") — e chega a orar "rogo a Deus que me livre de Deus", isto é, que me livre da imagem de Deus para tocar o fundo além dela. Para Eckhart, a alma tem um "fundozinho" (Fünklein, a centelha) que só descansa nesse Nada superessencial. João da Cruz chega ao mesmo ponto pela ascese: no desenho do Monte Carmelo, o caminho do cume é a ladainha do nada, nada, nada, e no monte, nada — despojar-se de tudo, inclusive das imagens de Deus, para uni-se a Ele em pura fé (ver noite-escura). E a raiz de ambos é o Pseudo-Dionísio (Teologia Mística, séc. V–VI): a Deus se sobe negando os nomes, um a um, até o silêncio luminoso onde nem "ser" cabe (a via apofática; ver nuvem-do-nao-saber). O lastro bíblico é o Deus que se nomeia sem se deixar prender — "Eu sou o que sou" (Êx 3,14) — e que "habita uma luz inacessível" (1Tm 6,16).
Mas — e este é o coração católico da âncora — esse "Nada" nunca é o fim, nem um vazio impessoal. É o excesso de uma Pessoa. A treva é escura de tanta luz; o silêncio está cheio de um Tu; o esvaziamento é véspera de um abraço. Eckhart nega o "Deus" nomeado para tocar mais fundo o mesmo Deus vivo e pessoal, não para dissolvê-lo num campo neutro. E é justamente aqui que a Igreja pôs o limite: parte das proposições de Eckhart foi censurada na bula In agro dominico (1329) — não porque a via negativa seja errada, mas porque, levada ao pé da letra por leitores descuidados, ela pode escorregar para a dissolução da pessoa (a alma e Deus virando indistintos, o "fundo" apagando a alteridade e a lei moral — o antinomianismo que a Igreja condenou no "livre espírito", ver ad-nostrum). A mística do Nada é ouro enquanto o Nada é um Deus pessoal além do conceito; vira erro quando o Nada apaga o Tu e o eu.
Rima com: Nishida Kitarō e o zettai mu 絶対無 — o par central desta âncora, e a ponte intelectual da marca. O nada absoluto de Nishida (o basho, o lugar sem-fundo que a tudo acolhe) é o parente filosófico do Gottheit de Eckhart — e não por acaso: Nishida lia e citava Eckhart (ver nishida_o_nada_e_a_mistica_crista). Foi sobre essa rima que se ergueu, no séc. XX, o diálogo budista-cristão (a Escola de Kyoto, Nishitani, Takizawa com Karl Barth, Merton com D. T. Suzuki). Toca também o ku 空 (o vazio budista pela via negativa) e a nuvem-do-nao-saber (a douta ignorância).
Racha: para Nishida (e para o horizonte budista), o nada absoluto é o fundo impessoal — o lugar último não tem Ninguém do outro lado; é campo, não Face, e o esvaziamento desemboca num acolhimento sem rosto. Para Eckhart e João da Cruz, o "nada" é o excesso de um Deus pessoal — nega-se todo conceito para se unir a um Tu pleno demais para nomear, e no fundo do fundo espera Alguém que abraça. Mesma via negativa (os dois passam pelo esvaziamento de toda imagem); destinos opostos: um silêncio vazio de essência e de face, um silêncio cheio de uma Pessoa. Em uma linha: o Nada é o fundo sem Ninguém (Nishida) ou a luz demasiada de um Deus que é Alguém (Eckhart)? A vertigem do esvaziamento de todo conceito rima de arrepiar; o que há — ou não há — no fundo do Nada é o timbre. Nota de marca: é a âncora que dá lastro à ponte Japão × Cristo pela via da inteligência (topo neutro), e só é honesta com o racha à mostra e o limite magisterial marcado — a ponte une sem dissolver; não funde. Do nada que acolhe, a marca aponta para o Chão que tem Rosto e nome.
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Fonte: conhecimento/catolico/divindade-alem-de-deus.md