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Zettai mu

O nada absoluto

絶対無 (zettai mu) é o nada absoluto — o conceito-cume de Nishida Kitarō e da Escola de Kyoto, e a peça-ponte da marca para a mística cristã. A palavra assusta e engana: não é o "nada" niilista do desespero, o "não há nada", o buraco. Nishida distingue com cuidado. Há o nada relativo (相対無): a mera ausência de alguma coisa — não há pão na mesa — que ainda depende do ser para existir como falta, o nada que é só o outro lado do ter. E há o 絶対無, o nada absoluto, que nem sequer se opõe ao ser: é mais fundo que a diferença entre ter e não ter. É o 場所 (basho, o "lugar / topos") último — o campo sem forma, sem borda e sem fundo, que não é nenhuma das coisas e é aquilo dentro do qual toda coisa aparece e some. A imagem que abre: o espaço vazio de uma sala não é nenhum dos móveis, e é exatamente por não ser coisa nenhuma que todos os móveis podem estar ali; tire os móveis, o espaço fica. Onde a metafísica ocidental, dos gregos em diante, punha um Ser supremo no fundo de tudo (o Ente máximo, a rocha), Nishida põe um Nada que a tudo acolhe — o fundamento que não é fundamento, e que por não ser coisa, não pode ruir.

É o parente filosófico ocidentalizado do ku 空 (o vazio budista, śūnyatā): o ku diz que nada tem essência fixa; o zettai mu pega essa intuição e a pensa com o aparato da filosofia alemã, como lugar e fundamento. Toca mujō 無常 (a impermanência de que o luto fez Nishida pensar o chão — ver nishida_filosofia_do_luto) e fushiki 不識 (o não-saber apofático, o fundo sem forma que o conceito não alcança). Não confundir com niilismo: o zettai mu acolhe, não destrói — é o campo que segura o aparecer das coisas até depois que as coisas se vão (ver nishida_o_nada_absoluto).

Contraponto: ver a âncora divindade-alem-de-deus e, no mesmo eixo, nuvem-do-nao-saber e noite-escura. Rima: a mística cristã, no cume, também chega a um "nada" que não é ausência — o Gottheit (a Divindade como Nada sem-fundo) de Meister Eckhart, que Nishida lia e citava; o nada, nada, nada de João da Cruz; a treva luminosa do Pseudo-Dionísio. Nos dois, o mais fundo não é uma coisa a mais, é o sem-forma que permite todas as formas. É a ponte mais preciosa do banco. Racha, e é o timbre: o zettai mu de Nishida é o fundo impessoal — não há Ninguém no lugar último, o basho é campo, não Face, e o eu que o toca se dissolve num acolhimento sem rosto. O "nada" de Eckhart e João da Cruz é a treva de luz demais, o excesso de um Deus pessoal além de todo ser e conceito: nega-se tudo para se unir a um Tu pleno demais para caber em nome, e no fim do esvaziamento espera Alguém que abraça. Mesma via negativa, destinos opostos: um silêncio sem fundo e sem face, um silêncio cheio de um Deus pessoal. Limite magisterial: a ponte vale quando o nada une sem dissolver; quando a mística do nada apaga a pessoa — alma e Deus indistintos, sem alteridade nem lei —, a Igreja marcou o passo (Eckhart censurado em In agro dominico; ad-nostrum contra o "livre espírito").

Mestre: nishida (o conceito que ele funda); ressoa no ku budista de que é o parente ocidentalizado

Fonte: conhecimento/conceitos/zettai-mu.md