Yume
夢 (yume) é "sonho" — mas no Japão espiritual, e sobretudo em Myōe, não é o refugo da mente cansada nem a fantasia à toa: é um canal legítimo de conhecimento, orientação e encontro com o sagrado. A alma que dorme não está desligada; está numa sala onde budas, bodhisattvas, mortos, deuses e verdades podem visitá-la, corrigi-la, guiá-la. Sonhar é uma forma de saber — e às vezes de ser visitado.
Ninguém no banco encarna isto como Myōe, que anotou os próprios sonhos por cerca de quarenta anos no 夢記 Yume no Ki ("Registro de Sonhos", ver myoe_o_diario_dos_sonhos) — a mais longa série de registros oníricos conhecida do Japão pré-moderno. Para ele o sonho não era enigma a decifrar por esperteza, mas palavra a acolher: a noite trazia direção quando o dia calava, consolo ao órfão, presença do Buda que ele amava e da terra santa que nunca pisou. O sonho como oração recebida deitado.
A raiz é budista e ambígua de propósito. Por um lado, o sonho é a metáfora-mestra da impermanência e da ilusão: "a vida é um sonho", tudo é yume maboroshi (夢幻, "sonho e miragem"), o mundo fenomênico é irreal como o que se vê dormindo — prima carnal de mujō 無常 e de ku 空 (o vazio). Por outro, e sem contradição, o sonho é janela: justamente porque a vigília também é sonho, o que aparece na noite pode ser tão real — ou tão irreal — quanto o "real". Em Myōe as duas faces convivem: o sonho revela o vazio e traz o sagrado.
Contraponto: ver sonhos-de-deus (a Escritura). Racha: para Myōe, o sonho abre o vazio e o mundo dos budas — um fluxo de imagens sagradas sem um Alguém pessoal do outro lado que o assine; a noite é janela para o fundo impessoal do real. Para o cristão, o sonho pode ser a voz de um Deus pessoal que chama por nome (José do Egito, Jacó, José esposo de Maria, "por sonhos eu lhe falo", Nm 12,6) — mas por isso mesmo exige discernimento: nem todo sonho é d'Ele ("os sonhos iludem muitos", Sir 34,1-7; Jr 23,25-32). O japonês recebe o sonho como via; o cristão recebe e peneira, porque atrás dele pode haver um Rosto — ou não. A reverência pela noite rima quase inteira; o que fala no fundo do sonho, e a peneira do discernimento, são o timbre.
Mestre: myoe
Fonte: conhecimento/conceitos/yume.md