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Doronuma / numachi

O pântano / o lodaçal — a terra onde o cristianismo ocidental não cria raiz e apodrece (a questão da inculturação)

A imagem com que Endō Shūsaku nomeou o problema de uma vida inteira: o Japão como um pântano (泥沼 doronuma, o lodaçal; 沼地 numachi, o terreno alagadiço) onde a muda do cristianismo ocidental não cria raiz e apodrece. No Silêncio, é o apóstata Ferreira — o mestre que renegou a fé — quem crava a frase ao jovem padre Rodrigues: este país é um pântano; tudo o que se planta aqui apodrece pela raiz; o cristianismo que vocês trouxeram nunca foi de fato crido pelos japoneses, foi deformado em outra coisa, um "Deus" que os camponeses confundiam com o sol e a natureza. A imagem é dupla e ambígua de propósito: pode ser o veredito derrotista (o Japão é impermeável a Cristo) ou o diagnóstico exato de um problema real — o de que uma fé exportada com a forma cultural da origem (o Deus-Pai severo, a lógica jurídica do pecado, a "cor" branca) não encarna numa sensibilidade que não é a dela.

É a formulação romanesca da grande questão da inculturação: como a fé se faz carne numa cultura sem virar mera cópia da cultura que a trouxe? E é o "não tem tradução" em pessoa — o problema-mãe da marca posto por um japonês católico que o viveu na própria alma dividida (ver endo_pantano, endo_terno_mal_ajustado). O ponto decisivo: a resposta de Endō ao pântano nunca foi "então joga fora o terno". Foi re-alfaiatar — procurar, debaixo do Cristo ocidental que não pegou, um rosto de Cristo que cabe no pântano: o companheiro materno que sofre-com, e não o Juiz que exige. O pântano não recusa Cristo; recusa uma roupa de Cristo. Trocar a roupa é a tarefa.

Marca o contraste exato com Suzuki Shōsan, que usou a mesma intuição para o fim oposto: no Ha Kirishitan, Shōsan conclui que o Deus cristão deve ser recusado (ver shosan_ha_kirishitan); Endō conclui que o Deus cristão deve ser re-vestido. Os dois lados da ponte Japão × Cristo, a partir da mesma imagem do solo que não recebe a semente.

Ressonância / a fé que responde: a inculturação é doutrina cristã, não concessão. O próprio Verbo se faz carne numa cultura concreta (Jo 1,14) — judeu, aramaico, de um tempo e um lugar —, e Paulo faz-se "tudo para todos" para ganhar a todos, judeu com os judeus, grego com os gregos (1Cor 9,19-22; ver tudo-para-todos). Pentecostes é o avesso do pântano: o Espírito faz cada um ouvir a Palavra na sua própria língua (At 2,6-11) — a fé não exige uma língua única, ela traduz-se. A parábola do semeador já sabia dos solos que não recebem a semente (Mt 13). E o racha com o budismo de fundo persiste no timbre: para o Zen, o "vazio" (ku) é o fundo sem rosto de tudo; a fé que Endō re-alfaia não dissolve Cristo no pântano, encarna-O nele — o solo muda de roupa, não de Senhor.

Mestre: Endō Shūsaku (o Silêncio, a fala de Ferreira); contraponto de shosan (o Ha Kirishitan)

Fonte: conhecimento/conceitos/doronuma.md