Haha naru mono
"O que é maternal", "a coisa materna". É a intuição-motor de Endō Shūsaku: contra o Pai-Juiz severo com que o cristianismo chegou ao Japão — o Deus que exige, que cobra, que julga, que preside o inferno —, Endō afirma e busca a face materna de Deus (母 haha, mãe). O materno, nele, não é sentimentalismo: é um modo de amar — o amor que perdoa antes de cobrar, que sofre-com em vez de julgar de fora, que não abandona o filho por pior que ele seja, como a mãe não abandona. Endō atribuía essa sensibilidade em parte à própria mãe (a fé intensa dela, que o batizou) e à afinidade da alma japonesa com o materno, contra o paterno-jurídico ocidental que ele sentia não caber no pântano (ver doronuma). O haha naru mono é a raiz do Cristo-companheiro: o companheiro que sofre-com é o rosto materno de Deus posto em pessoa. É o antídoto direto ao "Deus que corrige e aponta o dedo" de que o desigrejado fugiu.
Ressonância / a fé que ele achou: o materno em Deus é bíblico e tradicional — Endō o desenterrou, não o inventou. "Pode uma mãe esquecer o filho que amamenta? Ainda que ela se esquecesse, eu não me esqueceria de ti" (Is 49,15); "como uma mãe consola, assim eu vos consolarei" (Is 66,13); o Deus de Oseias que ensina o filho a andar e o toma nos braços (Os 11,3-4); o Pai do pródigo que, ao ver o filho de longe, corre e o abraça — um afeto que a Escritura pinta com cores maternas (Lc 15,20). E a tradição o nomeia: Julian de Norwich ("Deus como nossa Mãe", Revelações do Amor Divino), João Paulo I ("Deus é Pai; mais ainda, é Mãe"), a ternura do Coração de Jesus. O haha naru mono de Endō é essa corrente (ver deus-como-mae).
A tensão, marcada (não um racha, uma precisão): em Endō o materno tende, por vezes, a eclipsar o Pai e a justiça — e é aí que a leitura é contestada (a "graça barata", ver endo_chinmoku_fumie e a §10 da ficha). A tradição católica integra: o Deus que é ternura materna é o mesmo que é justiça e verdade; a misericórdia não dispensa a conversão, ela a cumpre — a mãe que acolhe é a mesma que quer o filho de pé. O rosto materno é a porta de volta; não anula a casa. Celebra-se o materno como cura do ferimento; marca-se que ele não é permissão para tudo.
Mestre: Endō Shūsaku (o haha naru mono, a Vida de Jesus)
Fonte: conhecimento/conceitos/haha-naru-mono.md