"Fiz-me tudo para todos"
Paulo enuncia o princípio da adaptação pastoral: "Sendo livre de todos, fiz-me servo de todos, para ganhar o maior número possível. Fiz-me judeu com os judeus… fraco com os fracos… fiz-me tudo para todos, a fim de por todos os meios salvar alguns" (1Cor 9,19-22). Ele o pratica no Areópago (At 17), partindo do altar "ao deus desconhecido" e citando os poetas gregos pra chegar a Cristo — a verdade entrando pela porta que o ouvinte já tem aberta. Os Padres chamam isso de synkatabasis (condescendência): o próprio Deus se acomoda à fraqueza humana pra alcançá-la — a Encarnação como o supremo "fazer-se um de nós" (Fp 2,7, "esvaziou-se, tomando a forma de servo"). Adaptar o como ao ouvinte, pra que o quê possa ser recebido.
Rima com: hōben 方便 / Eisai — os "meios hábeis" do budismo, e a maestria estratégica com que Eisai fez o Zen entrar no Japão sem afrontar o poder (o tratado que dizia que o Zen protegia a nação, a aliança com Kamakura, os templos híbridos — ver eisai_kozen_gokoku). E toca o senju nembutsu de Hōnen pela busca da forma que qualquer um alcança. A mesma sabedoria de encontrar a pessoa onde ela está.
Racha: em Paulo a flexibilidade é toda de método, e cerca uma linha vermelha nomeada e absoluta: "ainda que nós ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho… seja anátema" (Gl 1,8). Faz-se tudo para todos no como, jamais no quê — porque o conteúdo é uma verdade fixa e uma Pessoa (Cristo), não um dedo provisório apontando uma lua. No hōben budista a própria forma da verdade é, no limite, expediente ("dedo, não lua"), e a fronteira entre adaptar e diluir é mais fluida, sem um "isto não se negocia" tão duro. A astúcia pastoral rima fortíssimo; o limite explícito do inegociável é mais cristão. É o antídoto exato contra ler a acomodação como "vale tudo pra agradar".
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Fonte: conhecimento/catolico/tudo-para-todos.md