Dokkō
独行 (dokkō) é "andar só", "seguir sozinho o caminho" — a via da auto-suficiência radical, de bastar-se a si mesmo, de não depender de ninguém nem de nada. É o título e o coração do 独行道 (Dokkōdō, "o Caminho de Andar Sozinho"), os vinte e um preceitos que Musashi escreveu sete dias antes de morrer (ver musashi_dokkodo): largar o prazer, as preferências, o arrependimento, a inveja, o apego às coisas e às pessoas, o medo da morte, a poupança para a velhice, e até a dependência dos deuses ("respeita os budas e os deuses, mas não dependas deles" — ver musashi_deuses_nao_depender). O que sobra depois de largar tudo isso é o homem que anda sozinho: intocável porque não é escravo de nada, livre porque não se apoia em nada, dono de si porque não terceiriza a própria força. A via dupla — pena e espada — feita solidão inteira.
Convém distinguir dokkō de dois parentes do banco, que são próximos mas não iguais:
- de tonsei 遁世 (a reclusão, o retirar-se do mundo para um eremitério, como Chōmei ou Saigyō): dokkō não é sair do mundo — é bastar-se a si dentro dele, andar sozinho no meio da vida, dos duelos, das cidades. Musashi não vira eremita de montanha; é rōnin no mundo, só e autossuficiente.
- de sute 捨 (o largar, o abandono de tudo — de Ippen, que joga fora casa, nome e posses): dokkō usa o largar, mas o destino é outro. O sute de Ippen larga o eu para dissolver-se no nembutsu, no poder-do-outro; o dokkō de Musashi larga tudo justamente para não depender de outro nenhum — larga para bastar-se, não para entregar-se. É o largar a serviço da soberania do eu, não da rendição.
É, no vocabulário do banco, a exaltação máxima do 自力 (jiriki, a força própria) contra o 他力 (tariki, o poder-do-outro de Shinran) — os dois polos opostos exatos da relação com a própria força.
Contraponto embutido: o dokkō rima com o desapego cristão (largar o excesso, o apego, o medo) mas racha de frente com o seu para quê. A tradição cristã não larga para bastar-se — larga para depender melhor, e mais livremente, de Outro: "sem Mim nada podeis fazer" (Jo 15,5), "lançai sobre Ele toda a vossa ansiedade" (1Pd 5,7), a criança que se abandona ao Pai (Mt 18,3). Onde Musashi vê na dependência uma fraqueza a cortar, o Evangelho vê na auto-suficiência a prisão (Babel, o "sereis como deuses" de Gn 3/11) e na dependência filial a liberdade. Andar sozinho é uma grandeza fria e real; a fé cristã oferece o seu avesso: a força de verdade não é não-precisar-de-ninguém, é ter em quem se deixar cair (ver sem-mim-nada-podeis, indiferenca-inaciana). O largar rima; a solidão soberana × a filiação que se apoia é o timbre. E João da Cruz acrescenta o degrau que o dokkō não pisa: largar até o gosto de ter largado (noite-escura) — o eu orgulhoso da própria renúncia ainda está preso a si.
Mestre: musashi (o conceito que ele funda e batiza)
Fonte: conhecimento/conceitos/dokko.md