O Deus desconhecido
A convicção cristã, tão antiga quanto o primeiro sermão aos pagãos, de que o coração humano intui o sagrado antes de saber nomeá-lo — que há uma percepção real e verdadeira de Deus anterior à revelação, ao dogma e ao nome certo, e que essa intuição tateante não é erro a ser condenado, mas começo a ser acolhido. A cena-eixo é Paulo no Areópago (At 17,22-31): chegando a Atenas, cidade cheia de altares, o apóstolo encontra um dedicado "ΑΓΝΩΣΤΩ ΘΕΩ", ao deus desconhecido. Em vez de esmagar aquela religiosidade às cegas, ele parte dela: "aquilo que venerais sem conhecer, é isso que eu vos anuncio". Paulo reconhece que os atenienses já buscavam o Deus verdadeiro — "para que o buscassem, e talvez o encontrassem tateando, ainda que ele não esteja longe de cada um de nós; pois nele vivemos, nos movemos e existimos" —, e se oferece para dar nome e rosto ao que eles pressentiam sem saber. O lastro doutrinal é largo: Rm 1,19-20 (o que de Deus se pode conhecer é perceptível "através das obras", pela criação), Rm 2,14-15 (a lei escrita no coração até de quem não teve a Lei), Sb 13 (a beleza das criaturas leva a intuir o Autor), a luz que ilumina todo homem (Jo 1,9), os semina Verbi, as "sementes do Verbo" espalhadas por toda cultura (Justino Mártir). O que a teologia posterior chamou de sensus divinitatis — o senso do divino inscrito no humano. E, no séc. XX, a moldura conciliar: Nostra Aetate (a Igreja reconhece "o que há de verdadeiro e santo" nas outras tradições) e a tese debatida de Karl Rahner do "cristão anônimo" (a graça que age no coração antes do nome). A intuição do sagrado sem nome é verdadeira, e é começo.
Rima com: Saigyō — o par mais fértil do banco para o desigrejado que crê. As lágrimas de Saigyō em Ise (saigyo_lagrimas_de_ise) são a experiência do Deus desconhecido em estado puro: um monge budista, diante do sagrado de outra tradição, sem os nomes nem a doutrina daquele culto, é atravessado pela reverência e chora de gratidão — "não sei o que é que aqui habita, mas de tão grato as lágrimas me caem". É o altar ateniense feito poema: o coração que reconhece uma Presença antes de saber Quem, o espanto (o katajikenasa) anterior ao nome. Toca também o inominável do ku 空 e, pelo lado da beleza que desperta a intuição do Alto, a escada-da-beleza.
Racha: para o cristão, esse espanto sem nome é verdadeiro e é começo — mas é começo. O "não sei o que aqui habita" é o primeiro passo de um caminho cujo destino é um Rosto que se revelou: o Deus desconhecido de Atenas tem nome, e Paulo o anuncia — a boa-nova é justamente que o inominável se deu a conhecer, pessoal, em Cristo, e que "esse que venerais sem conhecer" quer ser conhecido. Para Saigyō (e para o horizonte budista), o sagrado permanece legitimamente sem nome: o inominável (ku) não é um degrau rumo a um Nome, é o próprio fundo das coisas, e o espanto repousa nele — não há Alguém à espera do outro lado que virá dizer o próprio nome. Em uma linha: o não-saber é morada (Saigyō) ou antessala de um encontro (Paulo)? O choro de gratidão diante do sagrado sem nome rima de arrepiar; a diferença é se, no fim do espanto, há o silêncio reverente do inominável ou Alguém que finalmente se apresenta. Nota de marca: é o ouro para quem saiu da igreja, perdeu os nomes, e ainda assim é tocado pelo sagrado sem saber por quê — o cristianismo não chama esse espanto de ingenuidade nem de idolatria; ele o acolhe, como Paulo acolheu o altar ateniense, e diz baixinho: "esse que você venera sem conhecer, deixa eu te apresentar". A ponte, não o muro.
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Fonte: conhecimento/catolico/deus-desconhecido.md