A ovelha perdida
O coração do Evangelho da misericórdia: a inversão da prioridade, o pior atendido primeiro. O pastor "deixa as noventa e nove no deserto e vai atrás da que se perdeu, até encontrá-la"; e achando-a, "põe-na alegre sobre os ombros" — e há mais festa no céu "por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos" (Lc 15,1-7; Mt 18,12-14). Jesus, criticado por comer com publicanos e pecadores, responde: "os sãos não precisam de médico, e sim os doentes; não vim chamar os justos, mas os pecadores" (Mc 2,17; Lc 5,31-32). O mesmo movimento no filho pródigo (Lc 15,11-32 — o pai que corre e abraça antes da desculpa) e na adúltera ("nem eu te condeno; vai e não peques mais", Jo 8,11). Deus como o pastor de Ezequiel 34,16: "buscarei a perdida, tornarei a trazer a desgarrada, ligarei a quebrada". O perdido não é o excluído do cuidado — é o primeiro dele.
Rima com: Bankei — o mestre que se recusou a expulsar o ladrão contra a petição de todos os monges justos: "vocês sabem o certo e o errado, vão se virar; ele não sabe — se eu não ficar com ele, quem fica?" (ver bankei_ladrao). A mesma inversão: o justo se vira, o perdido precisa mais. Rima também com o akunin shōki de Shinran ("o mau é o primeiro salvo", shinran_akunin_shoki) — a prioridade do pecador levada ao paradoxo — e com a lágrima de Ryōkan que converte sem repreender (ryokan_lagrima_sobrinho).
Racha: no Evangelho o perdido é buscado por um Pastor pessoal que sai à procura — deixa os noventa e nove, atravessa o deserto, carrega a ovelha nos ombros, se alegra; o amor de Alguém que vai atrás, não só a confiança na bondade de fundo do perdido. Em Bankei a misericórdia repousa em que o ladrão também é o Não-Nascido e pode voltar a si — o mestre fica e espera que ele se reconheça; no Shinran, é o Voto de Amida que acolhe o mau. A diferença fina: ficar-e-esperar que o perdido volte a si (a bondade já nele) × ir-atrás do perdido (o Pastor que se levanta e procura). E, no cristianismo, o pecador é resgatado de uma culpa real (ver pecado-original) por um ato de amor que o busca; no Zen, o perdido apenas reencontra o que nunca deixou de ter. O "cuidar primeiro do pior" rima fortíssimo; o Pastor que procura e a culpa real de que se resgata são o timbre cristão.
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Fonte: conhecimento/catolico/ovelha-perdida.md