翻訳不能 Não Tem Tradução Central de Produção

Homo viator

Homo viator / a vida como peregrinação / o coração inquieto a caminho de Deus

A imagem cristã, antiquíssima e central, de que o ser humano é essencialmente um viajante — o homo viator, o homem-a-caminho — e de que a vida inteira é uma peregrinação cuja Pátria não é aqui. O eixo é a frase de abertura das Confissões de Agostinho: "fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti" (inquietum est cor nostrum donec requiescat in te) — a inquietação, o não-caber, a sede que nenhuma coisa daqui sacia, são o sinal de que estamos de passagem e o motor que nos põe a caminho. A Escritura é toda estrada: Abraão que sai sem saber para onde (Gn 12), o Êxodo rumo à Terra Prometida, os patriarcas que se confessam "estrangeiros e peregrinos sobre a terra, buscando uma pátria" (Hb 11,13-16), o "não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura" (Hb 13,14), os cristãos como "peregrinos e forasteiros" neste mundo (1Pd 2,11). No séc. XX, Gabriel Marcel retoma o termo (Homo Viator) contra o homem-instalado, satisfeito, que perdeu a esperança justamente por não se saber mais a caminho. Andar não é castigo nem exílio sem sentido: é a condição de quem tem uma Casa à frente.

Rima com: Bashō — o andarilho por excelência, o de "os meses e os dias são viajantes da eternidade, e os anos que passam também são andarilhos" (a abertura de Oku no Hosomichi, ver basho_oku_no_hosomichi), que largou casa, nome e cidade para andar a pé e morreu na estrada (ver basho_poema_de_morte). A mesma verdade profunda de que existir é estar de passagem, de que a estrada é a condição e não o acidente. Rima também com Ippen, o sutehijiri que abandonou tudo e andou o Japão inteiro dançando o nembutsu (ver sute e hijiri) — o largar-e-andar como via.

Racha: a estrada de Bashō (e de Ippen) é, no fundo, circular e sem destino — anda-se porque tudo anda, a viagem é a própria condição impermanente (mujo), e morrer na estrada é dissolver-se no fluxo, sem porto no fim; os "sonhos que vagam pelos campos secos" vagam sem chegar. A peregrinação cristã tem rumo e Pátria: o coração é inquieto porque busca Alguém — não uma paz genérica, mas o repouso em Ti —, e a estrada leva a uma Casa que já está preparada ("vou preparar-vos um lugar… para que onde eu estou estejais também vós", Jo 14,2-3). O viajante que sabe não ter morada fixa aqui é a mesma figura nas duas tradições — de arrepiar como rima; mas Bashō anda um caminho que é fim em si (a beleza da passagem), e o peregrino cristão anda um caminho que desemboca num abraço. A inquietação e o desapego da morada rimam fortíssimo; a existência de um destino que espera é o timbre cristão.

Citado por: (backlinks abaixo, no Obsidian)

Fonte: conhecimento/catolico/homo-viator.md