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A comunhão dos santos

A comunhão dos santos / a perseverança da fé através das gerações / a Igreja que não morre porque é Corpo místico vivo no tempo

O artigo do Credo que diz que a Igreja é maior do que a sua estrutura visível e do que o seu tempo presente: communio sanctorum, a comunhão dos santos. Creio na comunhão dos santos — creio que a Igreja é uma só através dos vivos e dos mortos, dos que peregrinam na terra, dos que se purificam e dos que já veem a Deus; que a fé é um Corpo místico (1Cor 12,12-27) em que cada membro sustenta os outros, e que esse Corpo atravessa o tempo. Não é uma associação de contemporâneos: é uma corrente de gerações. A carta aos Hebreus dá a imagem: estamos "cercados por tão grande nuvem de testemunhas" (Hb 12,1) — os que creram antes de nós não sumiram, cercam-nos, correm conosco. E a fé que professamos não é invenção nossa: é "a fé que uma vez por todas foi confiada aos santos" (Jd 3), recebida de mão em mão, guardada e passada adiante.

Daí a promessa que funda tudo: "as portas do inferno não prevalecerão" contra a Igreja (Mt 16,18), e "estou convosco todos os dias, até o fim do mundo" (Mt 28,20). A Igreja não morre — não porque a sua instituição seja indestrutível (padres podem ser mortos, igrejas queimadas, o clero inteiro expulso), mas porque ela é Corpo místico vivo, e um corpo vivo continua vivo mesmo quando lhe arrancam os órgãos visíveis. Há sempre, na Escritura, um resto fiel que Deus preserva contra toda evidência: quando Elias se julga o último crente, Deus lhe responde "reservei para mim sete mil que não dobraram o joelho a Baal" (1Rs 19,18). A comunhão dos santos é essa continuidade teimosa da fé — subterrânea quando precisa, mas nunca extinta —, sustentada por Deus através dos que a passam adiante no escuro.

Rima com (o par de arrepiar): os Kakure Kirishitan, os cristãos escondidos do Japão — a comunhão dos santos em ato, no estado mais puro que a história registra. A fé passada de avó a neto por 250 anos, sete gerações, sem um único padre, sem igreja, sem Bíblia (ver kakure), é a nuvem de testemunhas fazendo a Igreja atravessar dois séculos e meio de silêncio total. Quando arrancaram o clero inteiro, mataram os mártires e queimaram as igrejas, o Corpo místico não morreu: viveu no sussurro doméstico, nas orasho decoradas de cor (ver kakure_orasho), na estátua escondida, na memória dos "três sinais" pelos quais reconheceriam a Igreja verdadeira quando os padres voltassem. E voltaram — a Descoberta de 1865 (ver kakure_descoberta) é o instante em que a Igreja invisível toca de novo a visível, "as portas do inferno" derrotadas depois de 250 anos de assédio. Os Kakure são a prova empírica de Mt 16,18: um Estado inteiro tentou apagar a Igreja no Japão por sete gerações e não conseguiu, porque a Igreja é Corpo, não só prédio.

Racha, e é o timbre: a comunhão dos santos consola, mas não vira o elogio da fé-sozinha. O mesmo fenômeno que prova que a Igreja sobrevive sem a instituição prova que ela anseia pela instituição: os Kakure correram para a Igreja no minuto em que puderam, procurando a estátua de Maria, o padre, os sacramentos (ver corpo-de-cristo). A comunhão dos santos é a Igreja invisível a serviço da visível, não no lugar dela — a nuvem de testemunhas sustenta o Corpo justamente para que ele volte a se reunir em torno da Mesa e dos sacramentos, não para dispensá-los. E há o aviso dos Hanare (ver kakure_hanare): a fé transmitida só de cor, sem a fonte viva que a corrige, conserva o fervor mas perde o conteúdo e deriva — a comunhão dos santos mantém o fio aceso, mas o fio quer chegar de volta à luz. A Igreja que não morre é a que permanece na videira (Jo 15,4; ver sem-mim-nada-podeis), não a que se contenta com a lembrança dela.

O que a marca herda: o consolo mais fundo que existe para o desigrejado — a fé não morre quando você fica longe, e você não está sozinho: uma nuvem de testemunhas te cerca, e a mesma fé que te passaram de mão em mão te espera de volta. A comunhão dos santos diz ao que saiu que ele não caiu fora do Corpo — só se afastou da parte visível dele — e que há um fio ainda ligado, tecido por gerações, puxando de volta para a Mesa. Herda-se a Igreja que atravessa o tempo e não morre; nunca o "então a Igreja não faz falta", que é o exato oposto do que os Kakure fizeram quando a porta se abriu.

Citado por: (backlinks abaixo, no Obsidian — reutilizável: par natural dos Kakure Kirishitan e de todo o eixo da ponte Japão×Cristo; do corpo-de-cristo; e de todo momento em que a fé atravessa gerações, o "resto fiel" e a Igreja que não morre aparecem)

Fonte: conhecimento/catolico/comunhao-dos-santos.md