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Vídeo longo 餓鬼 produto: fora-do-automatico

Por que nada parece suficiente

Fontes (episódios)

1. Abertura

Deixa eu te descrever um dia. E aposto que você já viveu uma versão dele.

O dia em que aquilo finalmente saiu. Aquilo que você passou anos perseguindo. Cada um aqui sabe o nome do seu "aquilo". O dia que você ensaiou na cabeça mil vezes: dirigindo, no banho, na fila do mercado.

E o dia veio. O brinde, a foto, os parabéns no grupo da família.

E antes da meia-noite, antes do champanhe esquentar na taça, a tua cabeça já tava na próxima.

[pausa]

Não teve nem lua de mel, cara. A coisa saiu, e não sustentou nem a noite da chegada.

[pausa]

E repara no que essa mesma pessoa (você, eu) faz no intervalo entre uma perseguição e outra. Anestesia. Scroll infinito, série até as duas da manhã, uísque de terça, droguinha venvansica pra dar gás num dia que não pede gás nenhum. E não é prazer, repara. É curativo. É tampão no buraco de não ter, naquele momento, nada grande o suficiente pra perseguir.

Em maior ou menor grau, todo mundo já morou nesse lugar. Uns visitam de vez em quando. Outros já pagam IPTU.

[pausa]

Nada preenche. Nem a conquista, nem o anestésico entre uma e outra.

E o pior: você não sabe o nome do que sente.

[pausa]

Esse fenômeno tem nome. E o Japão tem um conceito que se encaixa exatamente nessa dor.

Hoje eu te apresento. E aviso logo: é um conceito sinistro. Profundo, e desenhado de um jeito tão visceral que não vai mais sair da tua cabeça.


2. O que isso não é

Antes de te mostrar isso, deixa eu destrinchar o que você sente. Porque esse negócio engana.

Não é tristeza. Você funciona. Entrega o trabalho, leva filho na escola, dá risada alta no churrasco. Ninguém do lado de fora desconfia de nada. Você mesmo, na maior parte do tempo, não desconfia.

E não é ingratidão. Esse, aliás, é o golpe mais sujo que você aplica em si mesmo: "eu tenho tudo isso e não sinto nada, eu devo ser um monstro." Não é. Você sabe o valor do que tem. Sabe tanto que assusta. Porque saber o valor e não sentir o gosto, ao mesmo tempo, parece defeito de fábrica.

[pausa]

O fenômeno é outro. Olha ele de perto:

a satisfação não fica. Ela enche e vaza no mesmo dia. E você, achando que o problema é a coisa errada, troca de coisa. Troca de cargo, troca de carro, troca de cidade. Tem gente que troca de casamento.

E vaza igual.


3. O retrato

Eu vou te trazer um ponto de vista budista sobre isso, que pode te ajudar a entender essa fome.

Um conceito basal no budismo é a roda do samsara. Na crença deles, a existência é um ciclo: nascer, morrer, nascer de novo. E nessa roda existem seis reinos onde se pode renascer. O reino dos deuses. O dos humanos, esse aqui. O dos bichos. Os infernos.

E tem um reino inteiro feito de uma coisa só: fome.

Gakidō. O reino dos gaki. Os famintos.

[pausa]

餓鬼. Dois caracteres. O primeiro, 餓, é fome. E não é fominha de fim de tarde, é inanição. O segundo você já conhece sem saber: 鬼. Oni. Espírito, demônio. O mesmo oni dos filmes de samurai, o mesmo do Demon Slayer.

Fantasma faminto.

[pausa]

E o gaki tem corpo. Olha isso.

[B-ROLL: Gaki zōshi, rolos do século XII]

Isso é uma pintura do século doze. Corpo esquelético, braço de graveto. E no meio desse corpo seco, uma barriga descomunal. A fórmula clássica diz: garganta fina como uma agulha, barriga inchada como uma montanha. O bicho deseja o mundo inteiro, e não desce nada. E em algumas versões é pior: quando a comida encosta na boca, ela pega fogo. Vira chama antes de matar a fome.

[pausa]

Agora, o detalhe que me arrepiou quando eu entendi. Essa anatomia não é fantasia.

É fome de verdade. Corpo em inanição incha a barriga: a proteína acaba, o líquido do sangue vaza pros tecidos e empoça no abdômen. É por isso que criança faminta tem barriga grande. Quem pintou esse rolo no século doze tava pintando uma coisa que via.

A barriga do gaki não está cheia de comida. Está cheia da própria fome.

[pausa]

A tua avó conhece esse bicho, aliás. Ela só chama por outro nome: olho maior que a barriga. O gaki é isso, crônico. Não é o menino que se serviu demais no domingo. É uma existência inteira de olho maior que a barriga.

[pausa]

Quem cai nesse reino, diz a doutrina, é quem viveu de mão fechada e olho aceso: o avarento, o invejoso, o que passou a vida agarrado nas coisas, querendo mais.

Agora, a leitura que me interessa. E eu digo como leitura minha, não como doutrina: você não precisa acreditar em renascimento pra reconhecer o retrato. Tem gente que não esperou morrer. Mora no gakidō com CPF ativo. Paga boleto em dia, bate meta, e por dentro é aquela pintura: barriga do tamanho do mundo, e nada que desce alimenta.


4. Você já viu esse bicho

Esse gaki é a imagem do nosso "barriga sem fundo". Come, come, come, e não satisfaz.

E no Naruto tem um personagem que representa exatamente esse conceito. E o nome dele é literalmente esse: Gakidō.

[B-ROLL: Gakidō agarrando Naruto e sugando o chakra]

Um dos seis corpos do Pain. Aquele que absorve qualquer jutsu, que agarra o adversário e suga o chakra dele. Sem limite, sem fundo, sem nunca encher. O caminho do faminto, com nome e sobrenome budista, passando no Bom Dia & Cia sem ninguém perceber.


5. O gaki rico

Agora junta tudo.

Aquilo do começo. A conquista que não dura nem uma horinha, que não atravessa nem uma noite. O anestésico entre uma coisa que a gente tá perseguindo e a próxima meta. Aquilo tem nome técnico: nada parece suficiente.

É o estado nativo do gaki.

[pausa]

"Ah, mas eu não tô passando fome. Minha vida é boa."

Pois os catálogos medievais listam umas quarenta espécies de gaki. E tem uma que parece que foi descrita ontem, olhando pra nós: o gaki rico. Tá lá. Um gaki que pode comer à vontade. Que vive no luxo. Que goza prazer de gente grande. Alguns, diz o texto, vivem como deuses.

E não existe quantidade que faça ele se sentir cheio.

[pausa]

O gaki rico não sofre por falta. Sofre porque encher não é a mesma coisa que bastar.

É o nosso "dá a mão e quer o braço", só que por dentro: você ganhou o braço, e descobriu que agora quer o ombro. A casa que você comprou não falhou. O cargo não falhou. A viagem foi linda mesmo. Nada disso quebrou no caminho.

O que tem de quebrado é o fundo de quem recebe.


6. A pedra

"Tá. Então a saída é desistir? Aceitar que nada presta, vender tudo, virar budista de chinelo?"

Não. Segura aí, que agora a coisa fica bonita.

Em Kyoto tem um templo chamado Ryōanji. Você já viu foto dele sem saber o nome: aquele jardim de pedra famoso, um retângulo de cascalho branco penteado e umas pedras espalhadas. Tem gente que atravessa o planeta pra sentar e olhar pra isso.

Quinze pedras.

Só que tem um detalhe que o visitante descobre na hora, surpreso: não existe ponto nenhum do jardim de onde se vejam as quinze. De qualquer ângulo, uma pedra sempre se esconde atrás de outra. Você vê catorze. Anda pro lado: catorze. Outras catorze, mas catorze.

Isso não é defeito do projeto. Isso é o projeto.

Desenharam um jardim pra nunca te dar tudo. E é diante desse jardim que as pessoas encontram paz. Não apesar da pedra que falta. Por causa dela.

[pausa]

E do outro lado do mesmo templo tem uma bacia de pedra, dessas de lavar as mãos antes do chá. Uma fonte. Olha ela aqui.

[B-ROLL: tsukubai do Ryōanji, plano aberto]

Tá vendo os quatro ideogramas esculpidos em volta do buraco da água? Deixa eu trazer eles pra tela antes, porque é aí que mora o porquê dessa fonte carregar um significado tão profundo.

[NA TELA: 吾 唯 足 知 — os quatro caracteres completos, grandes]

Calma, não precisa se assustar com as quatro palavras complicadas. Olha só o que elas têm em comum: todas carregam esse quadradinho aqui, o radical 口. Kuchi. Boca.

[EDIÇÃO: o 口 em vermelho nas quatro]

吾, eu. 唯, somente. 足, bastar. 知, conhecer. Quatro palavras, e dentro de cada uma, uma boca.

Agora... olha de novo a fonte.

[B-ROLL: volta à tsukubai, fechando no centro]

Na pedra, nenhum dos quatro tem a sua boca. O escultor arrancou o 口 de todos, e deixou no centro um buraco quadrado só, cheio de água. A boca dos quatro é a mesma: o vazio do meio.

Completados pelo vazio, eles dizem: 吾唯足知. Ware tada taru wo shiru.

"Eu só conheço o bastar."

[pausa]

Repara. No reino do gaki, a boca é o lugar do tormento: minúscula, queimando tudo que encosta. Aqui, uma boca vazia, cheia de água parada, é o que completa a sabedoria.

[pausa]

A frase sobre o bastar só fica inteira por causa do vazio no meio dela. Tampa o buraco, e sobram quatro caracteres quebrados.

O vazio não é o defeito da frase. É o que completa a frase.

[pausa]

Tem uma máxima zen budista antiga que essa pedra resume: quem conhece o bastar é rico, mesmo pobre. Quem não conhece é pobre, mesmo rico.

O gaki rico é a segunda metade dessa frase, pintada.

[pausa]

Então a virada não é "aceita que nada presta". É outra, mais dura e mais libertadora ao mesmo tempo:

Para de exigir que as coisas te bastem.

Elas não foram feitas pra isso. A casa foi feita pra te abrigar, e ela abriga. O cargo foi feito pra te ocupar e te pagar, e ele ocupa e paga. A viagem foi feita pra ser linda por dez dias, e foi.

Nenhuma delas foi feita pra tampar o fundo. E quando você exige isso delas, não são elas que quebram. É você. Vira o bicho da pintura: engolindo coisa boa atrás de coisa boa, e tudo virando fogo na boca.


7. A fome

Agora... se nem o gaki rico, o que pode tudo, sai da fome, sobra uma pergunta. E eu vou deixar ela aberta, de propósito:

se nada disso era pra te bastar, o que era?

Tem fome que comida nenhuma resolve. Fome que casa não resolve, que cargo não resolve, que nenhum "mais" resolve.

Que fome é essa, e do quê, isso é conversa pra outro dia, aqui no canal. Por enquanto, basta saber que ela existe. E que senti-la não é defeito teu.

É a parte de você que ainda não foi anestesiada.

[pausa]

E se essa parte tá acordada em você, tem um lugar onde eu desço mais fundo nessas coisas que não cabem num vídeo. A cada quinze dias eu mando uma carta, uma newsletter. Sem fórmula, sem sete passos, sem promessa de preencher teu vazio em trinta dias, até porque você acabou de ver que não é assim que funciona. Só densidade, no tempo do texto. Link na descrição, se for teu caso.


8. Fechamento

Antes de você sair, um teste. Rápido, pra fazer agora, de cabeça, com a memória, não com a teoria.

[pausa]

Pensa na última coisa que você achou que ia bastar. A conquista, a compra, a mudança. Aquela que, quando viesse, ia finalmente encher.

[pausa]

Ela veio?

E se veio: quanto tempo durou o "bastou"? Um mês? Uma semana? Uma noite?

[pausa]

Não responde pra mim. Responde pra você. Porque é exatamente isso que o gaki não consegue fazer: olhar pra própria barriga e reconhecer que ela nunca esteve cheia de comida. Que sempre esteve cheia da própria fome.

[pausa]

Só enxergar isso já é mais do que o gaki enxerga a vida inteira. Ele não sabe que tem fome. Você acabou de saber.

[pausa]

O que fazer com essa fome, como parar de alimentar de finito uma coisa que finito nenhum enche, isso é um caminho, e não cabe no fim de um vídeo. Mas começa aqui, nesse reconhecimento. Guarda ele contigo hoje.

[pausa]

Se você já sabe que quer fazer alguma coisa com essa fome essa semana, o primeiro passo prático tá fixado aqui embaixo, no comentário.

[pausa]

E me conta nos comentários: qual foi a última coisa que você achou que ia bastar? Eu leio um por um.

[pausa]

E semana que vem, outro vídeo.

Tem uma palavra japonesa que te venderam como sabedoria milenar de aceitação. Aquela que o coach solta com cara de monge, pra você respirar fundo e aceitar tudo numa boa. No Japão, ela é bem menos elegante do que te contaram. E bem mais útil.

Semana que vem eu liberto essa também. Até lá.

Fonte: roteiros/youtube/ntt_02_餓鬼.md