O fantasma que vive cheio e mesmo assim morre de fome
Fontes: ntt_02_餓鬼 (roteiro do episódio 2, seções 3 a 6) e ntt_reel_05_nada_suficiente.
Preview text: Uma pintura de oitocentos anos que explica por que nada parece suficiente.
Texto
Deixa eu te contar de um bicho que os monges budistas pintaram há oitocentos anos, porque acho que você já cruzou com ele.
Corpo esquelético, braço de graveto. E no meio desse corpo seco, uma barriga enorme, inchada. Garganta fina como agulha, barriga do tamanho de uma montanha. Em algumas versões da pintura, quando a comida chega perto da boca dele, ela pega fogo antes de descer.
Chama-se gaki. Fantasma faminto. E o detalhe que me arrepiou quando entendi isso foi a anatomia. Corpo em inanição de verdade incha a barriga desse jeito: a proteína acaba, o líquido do sangue vaza pros tecidos e empoça no abdômen. É por isso que criança faminta tem barriga estufada. Quem pintou aquele rolo no século doze estava pintando o que via.
A barriga do gaki não guarda comida. Guarda a própria fome.
A tua avó conhece esse bicho por outro nome: olho maior que a barriga. Os catálogos budistas medievais listam umas quarenta espécies dele. Uma delas me parou o coração quando eu li: o gaki rico. Aquele que pode comer à vontade, vive no luxo, goza os prazeres de gente grande. E não existe quantidade que faça ele se sentir cheio.
Reconheço esse retrato num monte de gente que conheço. Reconheço em mim também.
O dia em que aquilo finalmente sai (o cargo, o número na conta, a casa, o corpo que você perseguiu por anos) devia bastar. E não basta nem uma noite inteira. Antes do champanhe esquentar na taça, a cabeça já foi pra próxima coisa. Você sabe o valor do que conquistou, sabe tanto que assusta. Só que saber o valor de uma coisa e sentir o gosto dela são músculos diferentes, e o segundo cansa rápido demais.
Em Kyoto tem um templo chamado Ryōanji, com um jardim de pedra famoso: quinze pedras espalhadas num retângulo de cascalho branco. E o detalhe que ninguém avisa antes de você ir lá é esse: não existe ângulo nenhum do jardim de onde se vejam as quinze pedras ao mesmo tempo. De qualquer lugar que você olhe, uma sempre se esconde atrás da outra. Isso é o projeto inteiro, desenhado de propósito pra nunca te dar tudo de uma vez.
Do outro lado do mesmo templo tem uma bacia de pedra, dessas de lavar as mãos antes do chá. Em volta do buraco onde a água fica parada, quatro caracteres esculpidos: 吾, eu. 唯, somente. 足, bastar. 知, conhecer. Cada um desses quatro carrega, dentro dele, o radical de boca. Só que na pedra, nenhum dos quatro carrega a própria boca. O escultor arrancou o radical dos quatro caracteres e deixou, no centro, um buraco quadrado cheio de água parada. A boca dos quatro é a mesma: o vazio do meio.
Completados pelo vazio, eles dizem: eu só conheço o bastar.
No reino do gaki, a boca é o lugar do tormento, minúscula, queimando tudo que chega perto. Naquela pedra, uma boca vazia, cheia de água parada, é o que completa a sabedoria da frase inteira. Tampa o buraco e sobram quatro caracteres soltos, sem sentido nenhum.
Existe uma máxima zen antiga que essa pedra resume: quem conhece o bastar é rico mesmo pobre, e quem não conhece é pobre mesmo rico. O gaki rico é a segunda metade dessa frase, com corpo e cara.
E aqui a virada é mais dura e mais leve ao mesmo tempo. Parar de exigir que as coisas te bastem. A casa foi feita pra te abrigar, e ela abriga. O cargo foi feito pra te ocupar e te pagar, e ele faz isso. Nenhuma delas foi feita pra tampar o teu vazio. Quando você exige isso delas, elas não quebram. Quem quebra é você, engolindo coisa boa atrás de coisa boa, tudo virando fogo na boca.
Fica então a pergunta que eu não respondo por você: se nem a casa, nem o cargo, nem a viagem foram feitos pra encher esse vazio, o que era? Que fome é essa, que casa nenhuma resolve?
Eu não sei a resposta inteira ainda. Sei que sentir essa fome é a parte de você que ainda não foi anestesiada.
Responde essa carta com a última coisa que você achou que ia bastar. Quanto tempo durou o "bastou"? Um mês, uma semana, uma noite? Não me responde rápido. Fecha os olhos um segundo antes de escrever.
Um abraço, Guilherme
P.S. Daqui a quinze dias eu volto com outra carta. Essa semana o vídeo novo trata da mesma fome, olhada de outro ângulo (o jeito como a gente aprende a não se irritar com quem irrita). Link lá no canal.
Notes derivados (Substack/social)
- "A barriga do gaki não guarda comida. Guarda a própria fome. A tua avó já sabia disso: olho maior que a barriga."
- "Quem conhece o bastar é rico mesmo pobre. Quem não conhece é pobre mesmo rico. Isso está esculpido numa pedra em Kyoto há séculos."
Fonte: newsletter/ntt_newsletter_02_gaki.md