Uji
O conceito mais vertiginoso de Dōgen, título de um dos fascículos mais famosos do Shōbōgenzō. Costuma-se ler 有時 como "às vezes", mas Dōgen o quebra ao pé da letra: 有 (u, ser/existência) + 時 (ji, tempo) — ser-tempo, o ser É tempo. Não que eu esteja dentro do tempo, como um objeto que flutua num rio que passa; eu sou tempo, e cada coisa que existe é uma configuração de tempo. Daí decorre o que interessa à vida: cada instante é completo e absoluto em si, não um degrau descartável rumo ao próximo. O agora não é a antessala do futuro nem sobra do passado — é a coisa inteira. "Ontem" e "amanhã" não são lugares reais aonde ir; só há este ser-tempo, e ele é total. É a raiz filosófica do "se não agora, quando?" (ver dogen_tenzo) e o que dá peso absoluto ao presente onde o só sentar acontece. A fumaça do incenso que ensinou a impermanência ao menino Dōgen amadurece aqui: se tudo passa, é porque tudo é tempo — e por isso o instante é tudo o que há.
Contraponto: rima com o eterno presente cristão e o sacramento do momento presente. Agostinho, nas Confissões (livro XI), desmonta o tempo e chega ao presente como o único real diante de Deus; Boécio define a eternidade de Deus como totum simul, "a posse total e simultânea de uma vida sem fim" — não tempo esticado, mas um agora pleno; e Jean-Pierre de Caussade (O Abandono à Divina Providência) faz de cada instante um sacramento, o lugar exato onde a vontade de Deus se oferece (o mesmo território do ichigo ichie). Mesma intuição: o presente não é passagem vazia, é o lugar cheio onde o absoluto se dá. Racha: em Caussade e Agostinho o instante é sagrado porque nele um Deus pessoal e eterno toca o tempo — o agora é habitado por um Tu e aberto pra uma eternidade que é d'Ele; em Dōgen o instante é absoluto em si mesmo, sem um doador e sem um Eterno por trás — o ser-tempo não repousa numa eternidade pessoal, ele é o próprio fundo. O peso infinito do agora rima; a fonte desse peso — um Deus eterno ou o puro ser-tempo — difere.
Mestre: dogen · Liga a: mujo (a impermanência de que o ser-tempo é a leitura radical) · shikantaza (o instante onde se senta) · dogen_fumaca_incenso
Fonte: conhecimento/conceitos/uji.md