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Noite Escura da alma

Noite Escura da alma / a purificação passiva / o "nada, nada, nada" do Monte Carmelo / o despojamento até dos bens espirituais

A doutrina de São João da Cruz (Juan de la Cruz, 1542–1591) — frade carmelita, poeta, místico e Doutor da Igreja — sobre a purificação da alma no caminho para a união com Deus, e sobre o passo mais vertiginoso desse caminho: a hora em que a alma precisa ser despojada não apenas dos apegos ao mundo, mas do apego aos bens espirituais — às consolações da devoção, ao gosto da própria oração, à imagem de si mesma como "aquela que progride". É a noite escura: a travessia às escuras em que Deus tira da alma tudo em que ela se apoiava, inclusive o doce da própria fé, para uni-la a Si em pura fé, "nu" de todo consolo.

O emblema é o desenho que o próprio João traçou do Monte Carmelo, com o caminho do meio — o único que chega ao cume — marcado pela ladainha do "nada": nada, nada, nada, nada, nada, e no monte nada (nada, nada, nada… y aun en el monte nada). Para chegar ao tudo (a união com Deus), é preciso passar por não querer nada: "para chegar a saber tudo, não queiras saber nada em nada; para chegar a possuir tudo, não queiras possuir nada em nada; para chegar a ser tudo, não queiras ser nada em nada." E o ponto que torna João único: esse "nada" tem de se estender ao próprio gosto de não querer nada — a alma precisa ser purificada até do apego ao seu desapego, do consolo que sente na renúncia, do orgulho fino de já estar despojada. Enquanto a alma se agarra à doçura da própria virtude, ainda não está livre; está presa por um fio mais sutil, e por isso mais perigoso. João distingue a noite ativa (o que a alma faz para se desapegar) da noite passiva (o que Deus faz nela, tirando-lhe as consolações à revelia, quando o esforço próprio já não basta) — e é decisivo que a purificação mais funda não é conquista da alma, é obra de Deus: Ele mesmo conduz a alma pelo escuro, e é Ele que a completa. Na escuridão, sem consolo e sem entender, a alma aprende a amar por pura fé — não pelo que sente, mas por Quem a espera. E a noite, que parece abandono, é na verdade a aproximação de um Deus tão próximo e tão além que a alma O experimenta como treva. A noite não é o fim: é o caminho para o abraço do Amado (imagem central do Cântico Espiritual: a alma-esposa que sai "em noite escura" à procura do Amado e O encontra).

Rima com: Kamo no Chōmei — o fecho do Hōjōki (ver chomei_apego_ao_desapego), em que Chōmei, tendo largado o mundo e encontrado a paz na cabana mínima, se pega amando a própria pobreza e pergunta se esse amor não seria, ele mesmo, um apego, uma falta contra a Via — e não se dá resposta, recita o Nome de Amida e cala-se. É, ponto por ponto, o mesmo abismo que João descreve: o desapego que precisa se purificar do próprio desapego, o ego que se esconde na virtude, a descoberta de que se pode estar preso justamente ao "não ter". Poucos textos no mundo chegam a esse ponto; Chōmei e João chegam pelos dois lados. Rima também, mais de longe, com o mushin / muga (o não-eu, a mente esvaziada) e com a via apofática que atravessa a nuvem-do-nao-saber (o vazio da não-compreensão como modo de tocar a Deus no escuro).

Racha: a noite de João despoja para unir — o "nada" é caminho, não destino; a alma é esvaziada de tudo, inclusive do gosto de se esvaziar, para se dar a um Amado que a espera do outro lado da noite. O vazio é a antessala de um abraço pessoal; a treva é a proximidade de um Deus que é Alguém; e é Deus, não a força da alma, que conduz e completa a purificação — a noite é passiva, recebida, uma graça, não uma proeza ascética. Em Chōmei o exame termina no silêncio e no nembutsu, sem resolução e sem Amado que responda: ele pergunta, não encontra resposta, recita o Nome a contragosto e se cala; o despojamento aponta ao vazio (ku) e à Terra Pura, não a um Tu que abraça — e o poder-do-outro do nembutsu existe, mas o fecho de Chōmei fica na dúvida, não na certeza do encontro. A descoberta de que amar o desapego é ainda apego é idêntica nos dois, e é rara no mundo inteiro; o racha está no que há do outro lado da noite. João atravessa a escuridão rumo a Alguém que a enche; Chōmei fica na escuridão, honesto e sozinho, com o Nome na boca e sem saber se há Alguém para ouvi-lo. A vertigem do despojamento que se despoja de si mesmo rima de arrepiar; a mão que espera no fim da noite é o timbre.

Citado por: (backlinks abaixo, no Obsidian — chomei, chomei_apego_ao_desapego)

Fonte: conhecimento/catolico/noite-escura.md