Os loucos por Cristo
Há uma linhagem cristã que não denuncia com o escândalo da Cruz (loucura-da-cruz) — ela desarma com o riso. Paulo já se diz "louco por causa de Cristo" (1Cor 4,10) e admite: "se enlouquecemos, é por Deus" (2Cor 5,13). Dessa raiz vêm os que fizeram da própria tolice um caminho de santidade: os saloi do deserto e os yurodivy russos (santos que se fingiam de tolos, andavam maltrapilhos, diziam absurdos — pra fugir da vaidade da santidade reconhecida e envergonhar os poderosos); Francisco de Assis e seus frades como ioculatores Domini, os "jograis de Deus", o louvor que dança como Davi diante da Arca (2Sm 6,14-16 — desprezado pela esposa por dançar "como um qualquer"); e, o mais límpido, Filipe Néri (1515–1595), o santo do humor. Néri aparava metade da barba pra parecer ridículo, lia livros de anedota durante cerimônias solenes, mandava discípulos fazerem coisas absurdas em público — tudo de propósito, pra matar a própria vaidade e a reverência que lhe queriam prestar. Rebaixava-se pela galhofa. E há o fundo evangélico de tudo: "fazei-vos como crianças" (Mt 18,3; ver deixai-vir-as-criancas) e o Pai que escondeu o Reino aos sábios e "o revelou aos pequeninos" (Mt 11,25). A leveza, o riso e a autodepreciação como a mais alta forma de humildade — porque só ri de si quem já largou o eu.
Distinta de loucura-da-cruz: aquela é o escândalo teológico da Cruz — a sabedoria de um Deus crucificado que ao mundo parece absurda, uma verdade a proclamar. Esta é a leveza/alegria/humildade que ri de si mesma por amor — o santo que se faz bobo pra se esvaziar, não pra denunciar uma doutrina. A Cruz é o conteúdo; o riso é o modo. As duas se tocam (a santa loucura), mas a da Cruz fere e proclama, a de Néri e Francisco desarma e alegra.
Rima com: Sengai — o abade do templo Zen mais antigo do Japão que pintava rãs cômicas e Hotei rindo, dava os desenhos de graça e se rebaixava por brincadeira; gêmeo de temperamento de Filipe Néri, a rima mais forte e quase inédita do banco (ver sengai_o_zen_que_ri e sengai_a_humildade_do_mestre). Toca também Ryōkan, o Grande Tolo que jogava bola com crianças, e, por contraste, o fūkyō transgressor de Ikkyū (a loucura que ataca, não a que acaricia).
Racha: o riso de Sengai dissolve — dissolve o eu, o apego ao sentido, a seriedade, no vazio (ku); a piada é o vazio, a graça está em soltar a exigência de significar, e não há ninguém do outro lado. A santa loucura cristã é o contrário do dissolver: é alegria diante de um Tu pessoal, e tem conteúdo definido. Néri é bobo por amor a Alguém — a palhaçada é ascese, morrer pra si diante de Cristo. Francisco dança diante de um Pai. A "loucura" cristã aponta pra Cruz, tem um rosto a amar e uma verdade a anunciar. O riso do Zen esvazia; o riso do santo se enche de um Outro. A mesma humildade que ri de si, a mesma leveza descalça — mas num caso ela desmancha o eu no sem-fundo, no outro ela salta de alegria porque há Alguém do outro lado do riso. É a ponte do riso que dissolve pro riso que ama.
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Fonte: conhecimento/catolico/loucura-por-cristo.md