Hansai
A palavra com que Takashi Nagai leu o inimaginável. 燔祭 (hansai) é o holocausto no sentido litúrgico antigo — não o massacre, mas o sacrifício inteiramente queimado, a oferta que o fogo consome por completo sobre o altar, sem que nada se guarde (o עֹלָה, olah, do Templo de Jerusalém; "holocausto" vem do grego holókauston, "queimado todo"). Na missa de réquiem pelos mortos católicos de Urakami, em novembro de 1945, Nagai propôs que a aniquilação daquele povo — o mais fiel, no bairro mais católico do Japão, junto à catedral, no hipocentro real da bomba — não fora um acaso nem só um crime, mas um hansai: uma oferta pura, um cordeiro sacrificial que Deus escolheu e aceitou para expiar os pecados da guerra e obter a paz que veio dias depois (ver nagai_hansai).
A leitura tem uma lógica terrível e consoladora ao mesmo tempo. Terrível porque diz que o lugar mais santo foi queimado por ser o mais digno de ser oferecido. Consoladora porque, para um pai, uma viúva, um órfão de Urakami — para o próprio Nagai, que achou a mulher em cinzas com o terço na mão —, a alternativa era o absurdo: os seus mortos por nada, num acidente cego da história. O hansai devolvia sentido: não morreram à toa, morreram oferecidos. Milhares se agarraram a isso para não afundar, e é humano, e é real.
Ressonância / o lastro que ele tem: o hansai não é linguagem inventada — é bíblica e litúrgica. O holocausto é sacrifício do Templo; o Servo sofredor de Isaías salva carregando a dor, "como cordeiro levado ao matadouro" (Is 53); e o coração de tudo é o Cordeiro imolado, o Rei que vence sendo morto, não matando (Ap 5,6). A intuição de que o sofrimento do inocente redime é o eixo do Evangelho. E a oblação da própria dor — a vítima que une o seu sofrimento à Cruz e o oferece — é ortodoxia funda (ver oferecer-o-sofrimento). Nesse registro, Nagai está em casa: um homem oferecendo, do meio das cinzas, a sua dor e a dos seus.
A tensão, marcada (o bisturi — e é o único ponto delicado de Nagai): o hansai derrapa quando deixa de descrever a oferta da vítima e passa a explicar a intenção do carrasco. Dizer "eu ofereço a minha dor no meio deste crime" é santo. Dizer "Deus escolheu e quis esta destruição como plano" é uma teodiceia perigosa — porque transforma um crime de guerra em vontade divina, e assim arrisca (1) aliviar a responsabilidade de quem lançou a bomba, (2) calar a revolta legítima da vítima diante da injustiça, e (3) fazer de Deus o autor do mal em vez do que o carrega. É a mesma aresta do problema do mal: a fé não deve dissolver o escândalo do mal, deve levá-lo ao pé da Cruz. Deus não quis Urakami. Deus estava em Urakami, pisado com os pisados — o Cristo-companheiro de Endō, o rosto do fumie que sofre-com, não do alto. A crítica ao hansai, dentro e fora da Igreja, é séria, e o banco a honra — sem por isso apagar o consolo que a leitura deu (reception real, ver nagai_hansai).
O que a marca herda: a beleza da oferta da dor (isso é ouro, reutilizável em todo o eixo da Cruz) e a disciplina de nunca deixar a oferta da vítima virar justificação do crime. Apresentar o hansai sempre como a interpretação consoladora de Nagai — comovente, humana, de um homem tentando não afundar no absurdo —, jamais como o decreto "a bomba foi vontade de Deus". Separar a oblação (do lado da vítima que se une a Cristo) da teodiceia (do lado de justificar o carrasco) é o que salva o uso de Nagai.
Mestre: Takashi Nagai (o discurso do réquiem de Urakami, 1945; Os Sinos de Nagasaki, 1949)
Fonte: conhecimento/conceitos/hansai.md