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Fushiki

Não sei / não reconheço — a douta ignorância

A palavra com que Bodhidharma fecha o encontro com o Imperador Wu. Depois de dizer que a obra piedosa do imperador não gerou "nenhum mérito" (無功徳) e que a verdade última é "vasto vazio, nada de sagrado" (廓然無聖), ouve a pergunta que devolve a bola: "e quem é você, que está aí diante de mim?" — e responde 不識, "não sei" / "não reconheço". Não é ignorância de quem não estudou; é o abandono do saber-se diante do fundo das coisas e de si mesmo. Onde o imperador queria uma definição (um mérito contável, uma doutrina sagrada, uma identidade nomeável), Bodhidharma tira o chão: a resposta mais verdadeira ao mistério não é um conceito a mais, é o silêncio honesto do "não sei". É a humildade radical como porta — e, no Zen, o primeiro caso do Hekiganroku mora aí.

No banco: parente do ku 空 (o "não sei" é o vazio aplicado ao próprio sujeito — não há um "eu" fixo a reconhecer) e do mushin (a mente sem apoio); avô da desconfiança Zen do conceito e da letra (不立文字, "não se apoiar em palavras"). Contrasta com a ânsia de ter todas as respostas: no Zen, "não sei" é maturidade, não fracasso.

Contraponto: ver nuvem-do-nao-saber — a teologia apofática cristã (A Nuvem do Não-Saber, Pseudo-Dionísio, a douta ignorância de Nicolau de Cusa): Deus que se conhece desconhecendo, na nuvem onde os nomes caem. Racha: o "não sei" apofático cristão nega os conceitos porque Deus é excesso — um Tu inefável de tão pleno, e o não-saber é união com Alguém; o 不識 nega porque no fundo há vazio, ausência de essência, e não um Tu superabundante. A mesma humildade que emudece o conceito; num caso o silêncio é cheio de Presença, no outro é a vacuidade.

Mestre: daruma

Fonte: conhecimento/conceitos/fushiki.md