Eu estava no Japão no terremoto de 2011
[direto na câmera, sério, sem pose]
Onze de março de 2011, duas e quarenta e seis da tarde. Eu estava no Japão, na cidade de Saitama, quando o chão começou.
[pausa]
Não foi um susto de segundos. Foi quase três minutos. As pilastras do prédio dobrando como se fossem de borracha. Os carros no pátio pulando no lugar, juro, que nem coelho. E eu no térreo, segurando umas senhoras pra elas não caírem, levantando quem já tinha caído.
[pausa]
Aí acalmou. Cada um pegou a bicicleta, foi pra casa. Sobrou uma turma na frente da televisão. E não deu cinco minutos, apareceu o aviso de tsunami no rodapé da tela. E logo a imagem: uma cidade inteira sendo levada pela água.
[pausa]
E era questão de minutos. Quem estava na costa tinha pouquíssimo tempo pra subir pro alto antes de a onda chegar. Todo mundo correndo pra cima, salvando a própria pele, como é natural.
Menos alguns.
[pausa]
Alguns, naquele exato momento, foram pro outro lado. Uma moça de vinte e quatro anos ficou num microfone mandando a cidade fugir, e não largou nem quando a água chegou nela. Bombeiros voluntários, gente comum, desceram em direção ao mar pra fechar as comportas e puxar os idosos que não conseguiam correr. Muitos não voltaram.
[pausa]
Isso tem um nome pesado: sacrifício. E repara numa coisa sobre o sacrifício. Ele só existe por causa do outro. Ninguém se sacrifica por si mesmo. Você só desce em direção à onda se tem alguém, do outro lado dela, que importa mais do que você.
[pausa]
Os japoneses têm uma palavra pra esse tipo de brio: Gaman. E te venderam ela toda errada, como "aguenta firme", mentalidade de guerreiro. Não é isso. Ela é sobre quem você já é quando o chão treme, e por quem você segura a onda.
Digita Tremor aqui embaixo que eu te mando o vídeo onde eu conto essa história inteira.
Fonte: roteiros/shorts/ntt_reel_27_terremoto.md