翻訳不能 Não Tem Tradução Central de Produção
Short 空腹

O xogum tinha tudo e nada era gostoso

[direto na câmera, tom de quem vai contar uma história]

Tem uma história de um xogum. O homem mais poderoso do Japão. Tinha tudo. E vivia reclamando que nada tinha mais gosto. A melhor comida do país na frente dele, todo dia, e era tudo sem graça.

[pausa]

Cansado disso, ele foi visitar um monge, o Takuan, e desabafou. O monge ouviu, e disse só: então tá. Passa o dia aqui comigo.

E aí o Takuan fez uma crueldade genial. Não deu nada pra ele comer. Foi enrolando o xogum. Uma conversa aqui, uma espera ali, o dia inteiro. O homem mais poderoso do Japão sentado, com fome, esperando, cada hora mais faminto. E o monge, nada de trazer comida.

[pausa]

Já era quase noite quando o Takuan finalmente mandou servir. E o que chegou foi uma tigela de arroz branco. Sem nada. O arroz mais simples do mundo.

O xogum comeu, e quase chorou. Nunca tinha comido nada tão gostoso na vida.

[pausa]

O problema dele nunca foi a comida. Era que ele nunca deixava a fome chegar. Enchia o vazio antes de sentir o vazio. E aí nada tinha gosto, porque gosto é o tempero que a fome coloca.

[pausa]

E presta atenção, porque isso não é sobre comida. O prazer de qualquer coisa vem do tanto que você sentiu falta dela antes. O descanso só é bom depois do cansaço. O reencontro só emociona depois da saudade. A conquista só tem gosto depois da espera. Tira a falta, e some o prazer. De tudo.

[pausa]

E é aí que a gente se ferra. A gente vive matando toda falta na hora que ela nasce. Tédio de dois segundos, já pega o celular. Silêncio, já bota um som. A vontade mal aparece, você já corre atrás. Nunca deixa a fome chegar. E aí reclama que nada te empolga mais.

Saciedade impossível tem cura. E a cura não é mais. É aprender a conviver um pouco com a fome.

[pausa]

Me conta aqui embaixo: o que é que você nunca deixa você mesmo sentir falta antes de já ir buscar?

Fonte: roteiros/shorts/ntt_reel_13_xogum.md