O ladrão que só achou um cobertor pra roubar
[direto na câmera, tom de quem vai contar uma boa história]
Reza a lenda: um ladrão entrou de noite na cabana de um monge, no alto de uma montanha no Japão.
[pausa]
Só que o monge, chamado Ryōkan, não tinha nada. Vivia de esmola. Uma tigela, um pincel, um pouco de papel, e o pote de arroz quase sempre vazio.
O ladrão vasculhou a cabana inteira. Não achou nada que valesse a pena levar.
[pausa]
Ryōkan estava deitado, fingindo dormir, e viu a aflição do coitado que arrombou uma casa pra sair de mãos vazias. Então fez uma coisa: fingiu dormir mais fundo ainda, e rolou pro lado — deixando exposto o único bem que tinha debaixo do próprio corpo. O futon onde ele dormia.
O ladrão puxou o cobertor de baixo do monge e fugiu com aquilo. A coisa mais pobre da cabana mais pobre da montanha.
[pausa]
E Ryōkan ficou ali, no chão, sem cobertor, no frio. Não sentiu raiva. Não sentiu falta. Sentiu quase pena — de não ter tido mais nada pra dar.
Levantou os olhos pra janela. A lua cheia brilhava lá fora, enorme. A única coisa que sobrou, e a mais bonita de todas.
[pausa]
E escreveu um verso. Dizia mais ou menos assim: o ladrão deixou pra trás uma coisa — a lua na janela.
[pausa]
Quisera ele ter podido dar a lua também.
[pausa]
Não sei se você reparou: não dá pra roubar quem não segura nada com força. E quem não segura nada com força ainda tem as duas mãos livres pra doar.
Fonte: roteiros/shorts/ntt_reel_12_ladrao_lua.md