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800 contatos, ninguém pra ligar num domingo

[direto na câmera, meio rindo]

Todo celular brasileiro tem um contato salvo como "Marcelo Pedreiro".

Tem a "Ana Consórcio - não atender", em maiúscula. Tem o "Júlio Academia", com interrogação na frente, porque você não lembra mais quem é o Júlio. Nem de qual academia.

Tem o grupo "Família 2.0" - porque o 1.0 explodiu numa briga de política. Tem o "Churrasco do Léo", cujo último churrasco foi antes da pandemia.

[pausa]

Oitocentos contatos. Você tem mais gente no bolso que prefeito de cidade pequena.

[pausa, tom muda - desce]

Agora: domingo, três da tarde. A casa quieta, o almoço acabou, e bate aquela vontade de conversar. Não é pedir nada, não é resolver nada. É só conversar.

Você rola a lista. "Pra esse eu ia ter que explicar por que tô ligando." "Essa ia achar que eu quero vender alguma coisa." "Esse, faz três anos - ia ser esquisito."

[pausa]

Oitocentas pessoas dentro do telefone. E nenhum nome.

[pausa]

Contato você adiciona. Vínculo não - vínculo acontece. E o japonês tem uma palavra pra esse acontecer: 縁. En.

E o caractere não é "fio do destino", não é aquele negócio de anime. É borda. Beirada de pano.

É o mesmo caractere do 縁側, o engawa - aquela varanda de madeira que corre na beirada da casa japonesa. Nem dentro nem fora. O lugar onde o vizinho senta sem precisar ser convidado pra entrar.

[pausa]

Repara que a gente perdeu o engawa. Perdeu o muro baixo, a janela pra rua, a cadeira na calçada. E ficou com oitocentos contatos e nenhuma beirada onde alguém possa sentar sem hora marcada.

[pausa]

Então faz o seguinte hoje, agora: liga pra uma pessoa sem motivo nenhum. Sem assunto. Sem "oi, tudo bem, é que eu queria te perguntar uma coisa". Só liga.

Vai ser esquisito nos primeiros dez segundos. Depois não é mais.

[pausa]

E me conta aqui embaixo pra quem você ligou. Quero saber.

Notas de produção

Os contatos são arquétipos. Se a tua lista real tiver pérola melhor ("Roberto Freela 2019"?), troca pela verdadeira, que o riso dobra.

Fonte da etimologia (travar antes de gravar): a leitura usada é 縁 como borda/beirada (mesmo caractere de 縁側/engawa), não "fio do destino" (赤い糸) nem "laço" (絆/kizuna). É uma decomposição que um japonês pode contestar; segurar a fonte.

Punch alternativo (se quiser trocar o engawa): no Japão, quando você não passa numa vaga, a empresa diz "não houve en desta vez". É lindo, mas puxa o Reel pro corporativo e tira o domingo.

Fonte: roteiros/shorts/ntt_reel_09_800_contatos.md