O rato que o monge tentou enxotar
[direto na câmera, tom de quem vai contar uma boa história]
Reza a lenda japonesa: um menino, num templo Zen. Ele devia estar decorando sutra. E ele desenhava. Enchia margem de livro, chão, parede, de bicho, de gente, de planta.
[pausa]
Os monges brigavam. Ele voltava a desenhar. Não por teimosia. Por uma coisa que ele nem sabia explicar direito.
[pausa]
Um dia o mestre perdeu a paciência. Mandou amarrar o menino num pilar do templo. Horas, sem poder mexer as mãos. Exatamente as mãos. O crime dele.
[pausa]
O menino chorou. E olhando pro chão, com as lágrimas caindo nas tábuas, ele fez a única coisa que ainda sabia fazer. Com o dedão do pé, na poça da própria lágrima, desenhou um rato.
[pausa]
Quando o mestre voltou pra ver o castigo, viu um rato ali, perto dos pés do menino amarrado. E foi enxotar o bicho, com a mão.
O rato não corria.
[pausa]
Era tinta de lágrima.
[pausa]
O mestre entendeu na hora o que tinha ali na frente dele. Não era um noviço desobediente. Era um dom que nenhum pilar ia segurar. Soltou o menino. Deixou ele pintar.
[pausa]
Esse menino virou Sesshū. O maior pintor que o Japão já teve.
[pausa]
Não sei qual é o teu rato. Mas se tem uma coisa que você faz até de mãos atadas, até chorando, até depois de te mandarem parar mil vezes — talvez não seja bagunça.
Talvez seja pra onde você vai.
Fonte: roteiros/shorts/ntt_reel_03_rato_lagrimas.md