A moça que não largou o microfone
Fontes: ntt_01_我慢 (roteiro do episódio 1, seção 5) e ntt_reel_27_terremoto.
Preview text: Trinta minutos que ensinam mais sobre caráter do que qualquer palestra de resiliência.
Texto
Onze de março de 2011, duas e quarenta e seis da tarde. Eu estava em Saitama, no Japão, quando o chão começou a se mexer de um jeito que eu nunca tinha sentido antes. Quase três minutos de tremor. As pilastras do prédio dobrando como se fossem de borracha, os carros pulando no pátio que nem bicho assustado. Eu estava no térreo, segurando senhoras pra elas não caírem, levantando quem já tinha caído.
Isso eu já contei em vídeo. O que não coube lá foi o resto.
Passados uns minutos, ligamos a televisão. Enquanto o Japão inteiro assistia cidades sendo levadas pela água em tempo real, uma coisa acontecia, naquele exato momento, numa cidadezinha costeira chamada Minamisanriku.
Uma moça de vinte e quatro anos, funcionária da prefeitura, cuidava do sistema de alerta da cidade. Quando o tremor começou, ela pegou o microfone do alto-falante de emergência e passou a falar pra cidade inteira. "Foi emitido alerta de tsunami. Fujam para áreas elevadas." Repetiu isso por trinta minutos seguidos. A onda já dava pra ver da janela quando ela ainda estava no microfone. As últimas vozes na gravação já não são dela: são de colegas gritando pra ela subir no telhado. Ela não subiu a tempo.
Metade dos sobreviventes daquela cidade contou, depois, que saiu de casa naquela tarde porque a voz dela estava no alto-falante mandando sair.
Eu fui até lá, alguns meses depois. Fiquei parado na frente do que sobrou do prédio dela. E fica essa pergunta, difícil de largar: o que faz uma pessoa de vinte e quatro anos ficar, com a água subindo?
A palavra que os japoneses usam pra esse tipo de caráter é gaman. E é uma palavra que a gente comprou torta. Vira "mentalidade de samurai" em curso de liderança, "aguenta firme" em legenda de treino pesado. Mas repara no segundo caractere dela, sozinho: 慢. Orgulho. A palavra que te vendem como força bruta carrega orgulho escrito dentro. E no budismo, gaman entrava na lista das aflições que travam a vida espiritual de alguém, ao lado de cobiça e inveja. Um monge chamado Dōgen escreveu que quem quer enxergar a própria natureza mais funda precisa primeiro jogar fora o gaman.
Gaman de verdade nasce em relação ao outro. Existe porque tem alguém do seu lado. E foi por isso, também, que duzentos e quarenta e nove bombeiros voluntários (moradores comuns, pescador, agricultor, dono de mercearia, ganhando uns mil reais por ano de gratificação simbólica) desceram em direção ao mar naquele mesmo dia, pra fechar comportas de rio e puxar idosos que não conseguiam correr sozinhos. Enquanto a cidade inteira subia o morro, eles desceram até a beira da água.
Fica a pergunta que eu faço pra você, e que eu faço pra mim: se alguém te oferecesse cem reais, agora, pra descer até a beira do mar com um tsunami chegando, você desceria? Eu não sei se eu desceria. E o que fica claro, pensando nisso, é que quem desceu naquele dia não desceu por dinheiro nenhum. Desceu porque já era quem era antes daquele dia começar.
Caráter formado antes da crise, que aparece na crise, virado pra quem está do seu lado. É isso que a palavra guarda.
A parte boa, e também a mais incômoda, é que isso não pede terremoto pra aparecer. A tua comporta é bem menor que a da Endō Miki. É o telefonema que você faz sem vontade nenhuma porque prometeu. É segurar uma terça-feira comum, sem estar indo a lugar nenhum, só porque tem alguém do seu lado que precisa que você segure.
Fica comigo essa pergunta desde que eu voltei em Minamisanriku: que tipo de pessoa eu estou sendo hoje, numa terça sem graça nenhuma, pra ser o tipo de pessoa que desce até a comporta quando a onda vier de verdade?
Responde essa carta com uma coisa só: qual é a tua comporta essa semana? Eu leio todas.
Um abraço, Guilherme
P.S. Essa é a primeira de uma carta que eu mando a cada quinze dias. Sem fórmula, sem sete passos. Só o que não coube no vídeo.
Notes derivados (Substack/social)
- "A palavra que te vendem como força bruta carrega orgulho escrito dentro dela, literalmente. 慢."
- "Se alguém te oferecesse cem reais pra descer até a beira do mar com um tsunami chegando, você desceria? Eu não sei se eu desceria."
Fonte: newsletter/ntt_newsletter_01_gaman.md