A loucura da Cruz
Paulo crava o paradoxo que funda a estética cristã do "tolo santo": "A palavra da Cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós é o poder de Deus" (1Cor 1,18); "Deus escolheu os loucos do mundo para confundir os sábios, e os fracos para confundir os fortes" (1Cor 1,27); "se alguém entre vós se tem por sábio neste mundo, faça-se louco para ser sábio, porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus" (1Cor 1,25; 3,18-19). E ele próprio se diz "louco por Cristo" (1Cor 4,10). Jesus já dissera: o Pai escondeu isto aos sábios e entendidos e o revelou aos pequeninos (Mt 11,25). Dessa raiz nasce a longa linhagem dos loucos por Cristo — os saloi do deserto, os yuródivi russos (santos que se fingiam de tolos e andavam maltrapilhos pra desarmar o orgulho e escapar da vaidade da santidade reconhecida), e o riso de um Filipe Néri. A idiotice aos olhos do mundo como a mais alta sabedoria.
Rima com: taigu 大愚 / Ryōkan — o mestre que assinava "Grande Tolo" como brasão de honra, largou herança e poder, e fez da tolice a sua liberdade (ver a ficha e ryokan_lagrima_sobrinho). O selo de Kokusen brincava com isso: o tolo tem a liberdade que o esperto perdeu. Toca também, por contraste, o fūkyō 風狂 de Ikkyū — a "loucura-do-vento" transgressora, mais próxima do louco-profético que denuncia (ver o limite católico em ad-nostrum: transgredir a fachada não é santificar o vício).
Racha: na loucura da Cruz há um escândalo salvífico e uma verdade a proclamar — um Deus crucificado, a derrota que salva, a sabedoria que confunde o mundo porque é verdadeira. O louco por Cristo é tolo por uma Pessoa e por um Evangelho que ao mundo parece absurdo. O taigu de Ryōkan é tolo de leve, por pura liberdade — sem alvo polêmico, sem verdade a anunciar, sem um Deus a proclamar. A "santa idiotice" que desarma o orgulho do mundo rima nos dois; o escândalo teológico (a Cruz como poder de Deus) só existe de um lado. E o yuródivi russo se faz tolo por ascese e por Cristo, disciplina dura; Ryōkan é tolo por temperamento e graça natural, sem a violência ascética.
Citado por: (backlinks abaixo, no Obsidian)
Fonte: conhecimento/catolico/loucura-da-cruz.md