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A santa indiferença de Santo Inácio

A santa indiferença de Santo Inácio / o "tanto quanto" (tantum quantum) / o desapego a serviço de um Amor, não de si

A doutrina de Inácio de Loyola (1491–1556, fundador dos jesuítas), no coração dos Exercícios Espirituais: a santa indiferença — a liberdade de não se apegar a nada criado, para poder escolher, em cada hora, só o que mais leva a Deus. O texto-âncora é o Princípio e Fundamento (nº 23): o ser humano foi criado para louvar, reverenciar e servir a Deus, e as demais coisas da terra foram criadas para o homem, para ajudá-lo nesse fim; por isso é preciso usá-las na medida em que ajudam (o célebre tantum quantum, "tanto quanto") e largá-las na medida em que atrapalham. E daí a frase que rima de arrepiar com o Oriente: devemos "fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas — de modo que, da nossa parte, não queiramos mais saúde que doença, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que curta" — desejando e escolhendo unicamente o que mais nos conduz ao fim para que fomos criados.

Note-se o que a indiferença inaciana não é. Não é frieza, nem apatia, nem estoicismo de não-sentir. É uma liberdade interior ativa, quente, ordenada a uma escolha (a eleição, o discernimento): o desapego serve para que a vontade não fique presa por preferências e possa, livre, buscar o que Deus quer. Não se larga para não precisar das coisas; larga-se para poder usá-las bem, na medida certa, sem que virem senhoras. É o desapego a serviço de um Amor — o meio, nunca o fim. Rima com Paulo: "aprendi a contentar-me com o que tenho… sei viver na pobreza e na abundância… tudo posso Naquele que me fortalece" (Fl 4,11-13) — a indiferença que não vem do bastar-se, mas do estar seguro em Outro.

Rima / racha com: Musashi e o Dokkōdō (ver musashi_dokkodo, dokko). A rima é quase frase a frase: "em todas as coisas não ter preferências" (Musashi) ⟷ "não querer mais saúde que doença, riqueza que pobreza, honra que desonra" (Inácio); os dois pregam o desapego a tudo, a mesma liberdade diante das coisas. Rima também com a noite escura de João da Cruz (o "nada, nada, nada"). Racha, e é o essencial: a indiferença de Musashi é para bastar-se a si — largar tudo para andar sozinho (dokko), o eu soberano que não depende de nada; o para quê do desapego é a auto-suficiência e o domínio de si. A indiferença inaciana é o tantum quantum: largar as criaturas na medida em que ajudam ao fim, e o fim é Deus — esvazia-se de preferências para ficar livre para escolher o que mais leva a Ele, não para não precisar de ninguém. Um se esvazia para ser senhor de si; o outro para ser servo livre de Outro (ver sem-mim-nada-podeis). A mesma renúncia às preferências, dois destinos opostos: o eu que se basta × o coração que se dá. É um "não tem tradução" fino: por fora, dois homens igualmente desapegados; por dentro, um anda sozinho e o outro anda com Alguém.

Citado por: (backlinks abaixo, no Obsidian — reutilizável para os ascetas e estoicos do banco: Musashi, os samurais do Hagakure, Suzuki Shōsan, e todo par de "desapego"; irmã de noite-escura e sem-mim-nada-podeis)

Fonte: conhecimento/catolico/indiferenca-inaciana.md