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Deixai vir a mim as crianças

Deixai vir a mim as crianças / tornar-se como criança

Os discípulos afastavam as crianças; Jesus se indigna e diz: "Deixai vir a mim os pequeninos e não os impeçais, porque destes é o Reino dos Céus" (Mt 19,14; Mc 10,13-16 — "e, tomando-as nos braços, as abençoava"). E, mais fundo que o carinho, a exigência: "Se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo nenhum entrareis no Reino dos Céus" (Mt 18,3; Lc 18,17). Não é sentimentalismo: a criança é ícone do abandono confiante — quem não tem poder, mérito nem cálculo, e por isso recebe o Reino como dom, de mãos abertas. Paulo apara a aresta: "sede crianças na malícia, mas adultos no juízo" (1Cor 14,20) — a infância do Evangelho é pureza de coração, não ingenuidade tola.

Rima com: Ryōkan — o eremita que jogava temari (bola de mão) e esconde-esconde com a molecada da aldeia até esquecer a tigela de esmola, e que via na criança recuperada o próprio estado de santidade (ver ryokan_criancas_bola). A infância como via, não como regressão: a leveza anterior à esperteza do mundo, o Grande Tolo que voltou a ser menino. Toca também o mushin (a mente sem cálculo) e a naturalidade que o Zen persegue.

Racha: em Jesus a criança é ícone da dependência filial — recebe o Reino porque confia no Pai, entrega-se a Alguém; a porta é a relação de filho. Em Ryōkan a criança é a espontaneidade sem eu, o brincar sem projeto, a naturalidade anterior ao cálculo — sem a referência a um Deus a quem se confiar. A pureza infantil rima quase idêntica; a confiança em Alguém que a funda no Evangelho, não. A criança de Jesus se abandona nas mãos do Pai; a de Ryōkan simplesmente brinca.

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Fonte: conhecimento/catolico/deixai-vir-as-criancas.md